Pouco mais de uma semana após o vazamento de conversas gravadas entre o senador e pré-candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, as pesquisas eleitorais começam a mensurar o tamanho do prejuízo para o parlamentar. O levantamento inédito da Futura Inteligência, divulgado nesta sexta-feira (22), aponta uma deterioração na confiança do eleitorado bolsonarista, resultando no isolamento e na liderança ampliada do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

No cenário espontâneo, a vantagem de Lula sobre Flávio quase dobrou, saltando de 7,1 pontos percentuais no levantamento anterior para expressivos 13 pontos na nova rodada. O petista lidera o índice com 37,9% das intenções de voto, contra 24,9% do senador. A dominância de Lula se estende para os cenários estimulados. No primeiro turno, o atual presidente alcança 42,7% das menções, enquanto Flávio pontua com 35,6%. Em uma eventual simulação de segundo turno, a diferença aponta 47,7% para o petista e 42,2% para o candidato do PL.
Análise. Apesar do recuo estatístico de Flávio Bolsonaro, o diretor da Futura Inteligência, José Luiz Orrico, faz uma ressalva metodológica crucial: os eleitores que abandonaram o senador não migraram para a esquerda.
“Houve impacto, e o interessante é que o Lula não sofreu alteração, não foi para cima nem para baixo. As intenções do Flávio é que tiveram queda. Em outras pesquisas, ele [Flávio] vencia no segundo turno”, pondera Orrico.
O especialista avalia que a alta rejeição histórica de Lula funciona como um dique de contenção. Se Flávio não demonstrar capacidade imediata de reação e caso nenhuma terceira via ganhe tração, a tendência matemática é o inchamento dos votos brancos e nulos. “Neste tipo de conjuntura é preciso esperar. O eleitorado que saiu dele não vai para o Lula”, explica o diretor.
Terceira via. O escândalo do áudio tampouco serviu de combustível para os demais postulantes ao Planalto. Nomes como Romeu Zema (Novo), Renan dos Santos (Missão) e Ronaldo Caiado (PSD) permanecem estagnados, sem apresentar oscilações positivas fora da margem de erro. O cenário consolida uma polarização resiliente e rígida.
De acordo com Orrico, quebrar a barreira do Fla-Flu político é uma tarefa complexa. “Por enquanto não houve crescimento de outros candidatos. Quando temos dois nomes que polarizam o debate de forma tão central, não é comum que uma terceira força emerja com facilidade”, diz. Ele acrescenta que, embora plataformas digitais deem visibilidade a nomes como Renan Santos, o engajamento de redes ainda não se converteu em intenções reais de voto. Especulações sobre candidaturas do ex-ministro do STF Joaquim Barbosa e do deputado federal Aécio Neves (PSDB) seguem sem impacto real nas planilhas.
Definição real fica para agosto. A radiografia do momento dá o favoritismo a Lula, mas a Futura Inteligência alerta que qualquer prognóstico definitivo antes do segundo semestre é prematuro. Historicamente, os desenhos eleitorais se consolidam a partir de agosto, com o início oficial das campanhas e do horário eleitoral. “Pode acontecer de tudo. Nunca vi uma pré-campanha com tantos fatos dinâmicos acontecendo em sequência”, conclui Orrico.
O estopim da crise. O desgaste nas pesquisas é o reflexo direto do áudio revelado pelo portal Intercept Brasil no dia 13 de maio. Na gravação, Flávio Bolsonaro solicita aportes financeiros ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme Dark Horse, uma produção biográfica sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.
As investigações jornalísticas apontam uma negociação de cifras astronômicas: uma contribuição estimada em US$ 24 milhões (cerca de R$ 120 milhões), com repasses já executados que somariam US$ 10 milhões até o ano de 2025.











