Um valão de esgoto com pouco mais de dois quilômetros e que passa por três bairros da cidade é o responsável pela contaminação de um dos principais estuários de vida marinha de Guarapari.

Aberto há mais de 20 anos para captar as águas da rede pluvial dos Bairros Praia do Morro e Aeroporto, o valão hoje recebe esgoto in natura dos Bairros Aeroporto, Jardim Europa e Jabaraí, que é despejado no Rio Perocão, que por sua vez desemboca no estuário de Santa Mônica, causando um alto índice de contaminação por coliformes fecais.

O valão recebe esgoto de três bairros antes de chegar ao rio Perocão. Foto: João Thomazelli/Portal 27
O valão recebe esgoto de três bairros antes de chegar ao rio Perocão. Foto: João Thomazelli/Portal 27

Um estudo realizado em 2007 obteve mostras de água e de moluscos de vários pontos do rio e obteve índices de contaminação similares ao da Baía de Vitória.

Esta semana a reportagem do Portal 27 percorreu toda a extensão do valão. As imagens são desconcertantes, principalmente quando percebemos que as águas que são transportadas pelo valão passam em frente a escolas e até mesmo servem de área de lazer para crianças.

No Bairro Jabaraí crianças brincam na beira do valão. Foto: João Thomazelli/Portal 27
No Bairro Jabaraí crianças brincam na beira do valão. Foto: João Thomazelli/Portal 27

 

Nos três bairros que dispensam esgoto no valão, apenas o Jardim Europa não possui rede de coleta de esgoto. Nos outros bairros é a própria população, que apesar de ter a rede de coleta de esgoto à seu dispor, prefere fazer ligações clandestinas na rede de água pluvial.

Cesan e Prefeitura cumprem seu papel nesta situação, construindo a rede coletora de esgoto e fiscalizando as casas com ligações irregulares, mas a Secretária de Meio Ambiente do Município admite que o trabalho para identificar as ligações é difícil.

“Por se tratar de canos que ficam debaixo da terra e muitas vezes em ruas já asfaltadas, fica difícil para a municipalidade chegar aos responsáveis pela ligação clandestina. Nós orientamos os proprietários, principalmente das novas construções a usarem a rede de coleta de esgoto e quando indisponível, construir fossas sépticas”, explicou Jéssica Martins de Freitas.

No estudo, que foi coordenado pelo Doutor Honério Coutinho de Jesus, os resultados foram preocupantes. E mesmo que tenha sido realizado em 2007, pouca coisa mudou desde então, ou melhor, piorou, já que o número de residências que despejam esgoto no valão aumentou.

“Pode-se observar uma maior concentração de cobre e arsênio nas ostras do rio Perocão em Guarapari, provável reflexo da grande carga de esgotos advindas dos bairros… O contato primário (natação, banho, mergulho) com as águas da Baía de Vitória e do rio Perocão, no qual pode acarretar na ingestão de águas contaminadas, deve ser desestimulado”, conclui o estudo.