
A proibição e o endurecimento das regras para apostas online — as chamadas bets — no Brasil já começam a gerar reflexos positivos nas vendas do comércio e no consumo de itens de primeira necessidade, como alimentos e medicamentos. Relatório de análise divulgado pelo BTG Pactual, com base em reuniões com executivos da rede Assaí Atacadista, identificou sinais de recuperação no consumo, com impacto sobressalente em cidades do interior e em bairros habitados por populações de menor renda.
A leitura de analistas e entidades do setor produtivo é que a renda antes comprometida com os jogos virtuais passou a ser redirecionada para necessidades cotidianas e despesas essenciais.
Perfil dos Apostadores e Avaliação Técnica
De acordo com o coordenador do Connect Fecomércio-ES, André Spalenza, levantamentos locais indicam que a grande maioria dos apostadores pertence a famílias com rendimento mensal de até dois salários mínimos. Segundo a avaliação, o orçamento destinado ao entretenimento por esse segmento populacional migra de forma natural para o consumo básico quando as plataformas virtuais deixam de operar.
O economista e presidente do Conselho Regional de Economia do Espírito Santo (Corecon-ES), Ricardo Paixão, reforça que o mercado de apostas disputava espaço direto com o planejamento financeiro familiar. A desaceleração das bets faculta a ampliação da quantidade e a melhoria da qualidade dos produtos comprados no comércio de vizinhança, como supermercados, farmácias, vestuário e prestadores de serviços. O especialista ressalva, todavia, que o ritmo de retomada geral das vendas depende também de variáveis como inflação, emprego e grau de endividamento.
Aprovação nos Pequenos Negócios e Impacto Econômico
Pesquisa realizada pelo Sebrae mostra que a proibição das apostas conta com a aprovação de 66% dos proprietários de micro e pequenas empresas brasileiras — dos quais 57% declaram-se totalmente favoráveis e 8,8% parcialmente favoráveis à medida. O posicionamento justifica-se pelos impactos reportados no ano anterior: 26% dos pequenos empresários afirmaram ter sofrido queda no faturamento em decorrência da expansão dos jogos online.
O levantamento do Sebrae revela ainda que 38% dos donos de micro e pequenos negócios projetam aumento no faturamento das empresas após o fim das plataformas, enquanto 42% estimam manutenção nos níveis de vendas.
Dados apresentados no Boletim Fiscal dos Estados Brasileiros indicam que as apostas retiraram R$ 62,5 bilhões do orçamento das famílias em 2025, com uma sangria média mensal estimada em R$ 4,7 bilhões entre outubro de 2024 e março de 2026. Estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made-USP) dimensionou o impacto anual das bets entre R$ 120 bilhões e R$ 141 bilhões retirados da atividade econômica em 2025, o que representou de 0,9% a 1,1% do PIB daquele período.
Disposições Legais e Circulação de Recursos
A interrupção do funcionamento das plataformas decorre de Medida Provisória assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva no final de setembro, que proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas e jogos online no território nacional. A norma impede o recebimento de novos palpites e prevê a intensificação da fiscalização e derrubada de portais ilegais, com rastreamento e bloqueio de movimentações financeiras.
Ainda em razão da medida, o governo prevê que aproximadamente R$ 1,3 bilhão mantido em contas de apostadores após a desativação dos sistemas voltará a circular na economia real. A Caixa Econômica Federal foi encarregada de gerenciar a devolução dos saldos restantes nos casos em que entraves operacionais impediram a restituição direta por parte das empresas.










