BRASÍLIA – AGENCIA CONGRESSO – “Nada distingue o PT do PSDB no governo. Os partidos brasileiros não se distinguem mais um do outro. É por isso que o povo está nas ruas exigindo um novo Brasil. E não é só a política brasileira, mas o Poder Judiciário, o Executivo. Ninguém se salva”. O desabafo é do senador Pedro Simon (PMDB/RS), perto de completar 85 anos de idade e 60 de vida política.

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Nesta entrevista concedida em Brasília após participar de audiência da Comissão de Relações Exteriores do Senado sobre o episódio de espionagem do governo americano no Brasil, o ex-governador gaúcho e ex-ministro do governo José Sarney criticou a falta de informações “sobre a violação” e alerta que interesses ligados à exploração de petróleo no país (pré-sal) podem ter estimulado os “grampos”.

Como o Sr. viu as de núncias de espionagem no país e as explicações dadas na audiência?

Foi uma tentativa de explicar o inexplicável. Atitude americana foi exageradamente antidiplomata. Se um país amigo faz um serviço de espionagem, eles que são defensores da democracia e da liberdade, podemos dizer que estamos vivendo em outro mundo. É um escândalo mundial.

A China e Rússia, e demais países, vão querer se defender, vão querer entrar do outro lado. Se trata de concorrência internacional. A exploração do petróleo pode estar por trás desse interesse. Eles estiveram ou estão a par de tudo que estamos fazendo.

O Brasil deve oferecer asilo político ao ex-técnico da CIA que denunciou o esquema de espionagem?

Acho que sim. Na reunião do Mercosul isso deveria ser debatido, e se for o caso, oferecer asilo coletivo. Os países da América do Sul devem debater. Ali se todos os países dessem seu apoio, dessem inclusive um asilo amplo a um país que ele quisesse escolher.

Pesquisa do IBOPE aponta que 81% dos brasileiros afirmaram que os partidos são corruptos. Como avalia índice tal alto?

Infelizmente é por aí mesmo. E a gente se analisar não são só os partidos, a política brasileira está assim. Mas também o Poder Judiciário, o Executivo . Na verdade, não é por nada que o Brasil tenha tido o segundo lugar mundial nesta consulta sobre corrupção.

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Acha que depois dessas manifestações das ruas, as próximas eleições podem apresentar resultado diferente?

Nessa última eleição municipal já apresentou resultado diferente com a lei da ficha limpa. Que o resultado vai ser diferente vai, que vai melhorar vai. Mas falta muito para isso. Nós temos que ter coragem. O povo na rua exige um novo Brasil. Um Brasil de mais justiça, de mais ética, de mais moral, de mais dignidade, de gente mais rigorosa no governo.

É a favor das manifestações?

Fiz inúmeros discursos convocando o povo para ir às ruas para pressionar o Congresso e os demais poderes a fazer as reformas. O Brasil ainda será um grande país e a participação dos jovens e das redes sociais é fundamental.

Das pré-candidaturas postas à presidência da República, qual se beneficia com o movimento que tomou o País?

Acho quem se beneficia mesmo é o governador de Pernambuco, Eduardo Campos, depois a Marina. A presidente Dilma tem um desgaste enorme porque o governo é dela. E o PSDB optou por não fazer uma oposição radical. O Aécio (Neves) até gostaria de ser mais enérgico, mas PSDB está num jogo de mentirinha para o PT. Na verdade, os dois não se acertam e um acusa o governo do outro.

Acha que os movimentos sociais vieram para ficar?

Ele surgiu nas Diretas Já, e nos forçando muito, Agora veio para fazer justiça, e veio forte. Existe no mundo inteiro, no Egito, existiu na Europa, e existe pelo mundo inteiro. E dentro desse mundo inteiro eu posso garantir um fato novo; as redes sociais vão sacudir o mundo inteiro, principalmente o Brasil.

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O episódio dos presidentes da Câmara e Senado flagrados usando os jatinhos da FAB para compromissos particulares o surpreendeu?

Surpreender, surpreender não. A não ser pela fase que estamos vivendo. Era um bom momento da Câmara e Senado, votando projetos de interesses da sociedade. Ai os dois fazem uma besteira que fizeram. Isso demonstra que eles não tem senso de oportunidade.

Foi uma atitude infeliz, tanto que se arrependeram e devolveram o dinheiro. Isso demonstra que eles não estão preocupados normalmente com isso. Se tivesse pensado antes, não precisariam ter feito o que fizeram e devolver o dinheiro.

O Senhor é a favor do fim desse privilégio?

Tirando a presidente da República, que tem que andar pelo Brasil, e tirando os ministros em viagens de trabalho – não viagem de fim de semana para seu estado, nem viagem para jogo de futebol – sou a favor. Duvido que em outro país exista isso.

O PMDB deve ter um candidato próprio à presidente da República?

Natural que tivesse, afinal é o maior partido do Brasil. Nem sei há quanto tempo estamos sem candidato próprio. O partido virou satélite para si, deveria ter um projeto de governo. Para ter um projeto de governo tem que ter uma candidatura própria à presidência.

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A voz da ética no Senado

Pedro Jorge Simon nasceu no último dia de janeiro de 1930. É testemunha da história política brasileira há mais de cinco décadas. Começou no PTB como vereador em 1958, em Caxias do Sul e como deputado estadual em 1962.

No MDB foi reeleito em 1966, 1970 e o mais votado em 1974. Foi Ministro da Agricultura do governo Tancredo Neves e continuou no cargo com a posse de José Sarney após a morte de Tancredo em 21 de abril de 1985.

Simon permaneceu na Esplanada dos Ministérios até o início de 19 86 quando renunciou para poder se candidatar ao governo do Rio Grande do Sul, e foi eleito. Cumpre seu quarto mandato de senador.

No Senado é conhecido coma voz da ética, e alguns dos seus pronunciamentos já resultarem em queda de ministro. Em 1992 foi líder do governo Itamar Franco e membro da CPI do Orçamento (CPI dos anões do orçamento), instituída após denúncias feitas por José Carlos Alves do Santos.

O que ele disse:

“A espionagem é um caso grave e deve ser investigado profundamente, pois representa uma ameaça à privacidade e às liberdades individuais garantidas pela Constituição brasileira”

“O povo está nas ruas exigindo um novo Brasil e o Senado está preocupado se o senador vai ter um ou dois suplentes. Não está havendo resposta ao apelo das ruas, das manifestações”

“A última eleição municipal já apresentou resultado diferente com a lei da ficha limpa. Que vai melhorar vai. Mas falta muito para isso”

“O Brasil ainda será um grande país e a participação dos jovens e das redes sociais é fundamental”

“Foi uma atitude infeliz (sobre viagens em aviões da FAB pelos presidentes do Senado e Câmara), tanto que devolveram o dinheiro”

Fonte: www.agenciacongresso.com.br

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