Hoje amanheci em uma delegacia, tentando ajudar uma amiga que, aos prantos tentava resgatar seu filho de mais um infortúnio que a bebida lhe causou – Dirigir embriagado (… e essa não é a primeira vez…). Após o pagamento da fiança vi que aquela cena estava fadada a repetir-se outras vezes, pois seu filho é alcoólatra e não admite uma internação para tratamento. Já perdeu tudo – bens, família e toda a sua essência humana, toda a sua razão. Foi neste momento, ao ver as lágrimas densas, antigas e profundas da minha amiga que lembrei-me deste texto que escrevi há 10 anos “O Som da Lágrima”- Uma reflexão sobre a dor… de como a dor dos “OUTROS” pode ser um ponto de partida para entendermos cada sentimento que a VIDA nos proporciona.

Eis o SOM… DA… LÁGRIMA…

Até o silêncio tem o seu som que, de tão intenso, torna-se a sonora melodia que acorda a alma para uma dimensão escondida ou esquecida em nós. Às vezes sua perfeita camuflagem inaudível é uma armadilha a nos confundir “solidão” com “estar só”, reflexões com pesadelos de um passado ou presente remexidos por lembranças que a todo o momento desejam vingar suas mágoas.

Tudo tem seu som, seja pelo beijo ou pelo tapa. O maestro a comandar a orquestra das nossas relações não poderia ser ninguém menos do que o famoso “orgulho” – ele com sua batuta abre o show da vida todas as manhãs e à noite, em grandioso espetáculo, faz uma pausa para os sonhos ou pesadelos.

Durante o dia, quando não tocamos certo a partitura do pseudo-sucesso, causa rotineira e lição obrigatória dos infelizes, na madrugada somos impiedosamente calados pela insônia das responsabilidades assumidas. Trancafiados ficamos em armaduras que, a pretexto de nos servirem de defesa, imobilizam nossa capacidade de reconhecer quão bem tocamos sozinhos e mais criativos somos quando desafiamos este mestre das valsas de uma nota só – a insensibilidade que nos leva a ser verdadeiros assassinos de almas.

Santo Agostinho costumava dizer: “As lágrimas são o sangue da alma”. E quantas já não fizemos sangrar pelas lanças afiadas das palavras irrefletidas ou gestos mecânicos, traiçoeiros e oportunistas? E quantas também já não nos causamos, simplesmente porque não ousamos recusar a tocar o réquiem daqueles que fazemos inimigos? Participar da orquestra que nos conduz a compor nossa própria música requer mais… muito mais que a ousadia de desafiar o maestro – requer ouvidos apurados, capazes de escutar o som da lágrima. Assim, a cada golpe na alma poderemos ouvir seu grito, sua agonia, sua fome, sua sede e sua súplica por trégua, perdão ou misericórdia.

A voz, violino de cordas divinas, tanto serve ao chicote da língua para causar a tristeza e evocar a ira, quanto a um equilibrado pensamento altruísta que signifiquem a alegria e a vitória do homem sobre o seu próprio câncer terminal e germinal – a síndrome da relatividade egoísta. Nunca achamos que somos egoístas o suficiente para precisar de uma mudança na rota do amor. Preferimos a impostora surdez dos sentimentos a ouvir o som da colisão de muitas lágrimas, com a esperança quase morta de milhões de mãos desesperadas, aquelas que todos os dias nas esquinas, no trabalho, na família, esmolam compreensão, gentileza, amizade, carinho e perdão.

Seja tudo que nasce ou que ao mesmo instante morre, seja efêmero ou duradouro, esta é a certa conclusão, todo sentimento tem seu som que assusta ou cativa, faz-se alerta ou sem guarda.

Beethoven cultivava a maestria de ouvir os sons da alma, talvez por isso tenha ficado surdo para o mundo da matéria. Privilegiou-se aos sons da voz interior e sabiamente compôs suas melhores obras depois de totalmente surdo. Sua última sinfonia, a nona, termina com a famosa “Ode à Alegria”. Certa vez um violinista queixou-se de que a cadência que o grande compositor havia escrito não podia ser executada, e ele respondeu: “Como posso me preocupar com suas limitações humanas quando estou tentando falar com Deus?”.

Quiçá o som da lágrima seja uma cadência impossível de ser escutada enquanto estivermos tentando falar de homem para homem, mas, como Beethoven, podemos tentar falar diretamente com Deus e com Ele superarmos as limitações das nossas crenças para tocar a maior de todas as sinfonias – “O SOM DE AMAR VERDADEIRAMENTE AO PRÓXIMO COMO A SÍ MESMO”. Em seguida, claro, que venha o “SOM DA LÁGRIMA FELIZ”, por ter enfim descoberto o maior segredo da vida: É escutando o som das lágrimas dos outros que aprendemos a ouvir as nossas como gargalhadas.

ESPERANÇA!!! Projeto Resgatando Vida. Comunidade Terapêutica no Bairro Lameirão em Guarapari, dedicada ao tratamento de Dependentes Químicos. Conheça ( 27 3114 0701 / 27 9948 1571 / 9955 2814)
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