Há uma lacuna no conhecimento sobre os efeitos do aumento do nível do mar. Há poucos registros históricos disponíveis no país. É uma área menos estudada do que outras relacionadas às mudanças climáticas, como o avanço da estiagem e do desmatamento, dizem os especialistas.

Sessenta por cento da população brasileira habita as faixas costeiras, onde estão 18 regiões metropolitanas. Sua análise é importante sob o ponto de vista científico e de políticas públicas. Estas localidades, por exemplo, são as maiores emissoras de gases-estufa no Brasil e, também, as principais vítimas desses poluentes.

Bem longe de ser uma obra de ficção científica, o painel alerta que o aumento do nível do mar poderá provocar a inundação de rodovias costeiras ou mesmo de extensos centros urbanos, danificando estruturas como pontes, viadutos, calçadões, passarelas, comércio etc.

Todos nós somos vulneráveis devido à ocupação popular e à falta de infraestrutura adequada. Existem sérios riscos de desabamento de encostas e as inundações previstas também provocarão sérios impactos em importantes setores da economia, como o funcionamento de serviços portuários.

A inércia do poder público provocará gastos emergenciais e muito maiores no futuro. Fala de especialistas afirmam que mesmo se a emissão de poluentes fosse imediatamente interrompida, os gases de efeito estufa permanecerão na atmosfera por até 100 anos.

O país precisa separar recursos para tirar do papel seus planos de adaptação contra as mudanças climáticas. As prefeituras, por exemplo, devem criar planos metropolitanos. Também é necessário elaborar um plano climático nacional, semelhante ao que já existe para a preservação da biodiversidade, o que não vem ao caso aqui.

É necessário ter familiaridade com os riscos de desastres não só para os gestores ambientais, mas para aqueles ligados aos setores produtivos e desenvolvimento. As soluções de governança e políticas devem ter caráter integrado e não apenas setorial.

Considerando a previsão do aumento do nível do mar, a população pode ser forçada a trocar o litoral pelo interior. O morador da orla capixaba – e não somente – não terá escolha. A experiência diz isso. Guarapari não tem diques, que são obras caras e cada vez mais adotados em países como Holanda e Austrália, mas já deve pensar em promover essa resposta, nesse tempo.

O município de Marataízes se torna uma referência para a cidade saúde nesse caso. Após ter as águas do mar invadindo suas ruas, recentemente a gestão pública local se deu por convencida de que os diques eram a melhor resposta, e assim, foi realizada essa intervenção, o que trouxe a resposta que o comércio local e a cidade precisava.

Os efeitos da interferência humana sobre o comportamento do mar não decorrem apenas de obras realizadas nas praias ou próximas ao litoral. Barragens erguidas a centenas de quilômetros da costa, em rios que deságuam no mar etc., interrompem o processo natural de transporte de sedimentos para as praias.

Com a escassez repentina de areia dos rios, as ondas do mar deixam de enfrentar as barreiras naturais e invadem com mais facilidade as praias. Soma-se a isso a fala de um morador de Guarapari: “Bem longe de beirar a indelicadeza, as vezes nos passa na mente a ideia de que o mar não está avançando, como muitos afirmam.

Pensamos mesmos é que nós é que estamos entrando mar a dentro com nossas construções e isso de maneira inconsequente.” Nós sugerimos e recomendamos ao poder público de Guarapari a realização de análises de risco de desastres naturais, sobretudo nas regiões da orla de Meaípe e praia do morro. A ideia de fazer uma contenção provisória parece ser bem atraente nesse momento.