Após três dias com dor, homem morre e amigos acusam UPA e Samu de negliência

Na segunda reportagem especial sobre negligência médica o Portal 27 (Confira a primeira aqui), ouviu o drama de uma família que acolheu um amigo e viu ele sofrer com fortes dores durante três dias até morrer por falta de socorro e diagnóstico médico errado.  Eles acusam o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) pela morte do ajudante de mecânica Marcos Rodrigues Silva, de 34 anos.

Marcos sofreu com fortes dores durante três dias até morrer.

O motorista Edmar Huller, de 40 anos, era amigo de Marcos e relatou que ele era de Coronel Fabriciano, em Minas Gerais, e estava morando em Guarapari há cerca de 4 meses. “Ele veio em busca de um serviço, mas como não conseguiu.  Minha mãe é cadeirante ele começou a ajudar ela e ficou morando na casa dela no São Gabriel”.

No último dia 22 o ajudante de mecânica começou a passar mal e foi aí que começou sua saga para conseguir atendimento médico. ” Ele reclamou de uma dor muito forte do lado da barriga. Os vizinhos ligaram para o Samu para socorrer ele porque não tinha carro. Mas o Samu não buscou. Ele foi para o UPA e o médico falou que era estômago, deu remédio e mandou ele vir para casa. Mas ele falou que queria ficar internado porque não era estômago, ficou sentindo dor e veio embora”.

De acordo com Edmar, no dia seguinte a dor persistiu e mais uma vez o Samu foi acionado e não prestou socorro e na UPA Marcos também não consegui ser internado. ” Ligaram para o Samu de novo e mais uma vez o Samu não socorreu. Falou que que a unidade móvel de saúde não poderia se deslocar porque não era coisa grave.  O vizinho socorreu ele e o levou para o UPA. Lá deram injeção e falaram que era estômago de novo, que era uma dor que iria voltar e parar. Ele insistiu para não mandarem ele embora, não aguentava de dor e rolava no chão. Mas eles falavam que iria passar e mandaram para casa”, disse o amigo.

Unidade de Pronto Atendimento de Guarapari onde Marcos foi procurar atendimento.

Na sexta-feira (24) Marcos continuava sofrendo de dor e pela terceira vez não conseguiu ser atendido pela ambulância do Samu e também foi diagnosticado com dores no estômago na Upa. “Ligaram para o Samu de novo porque o vizinho não estava em casa. Mas eles informaram mais uma vez que não era caso de urgência e não iriam socorrer ele. O vizinho chegou e levou ele para o UPA, ele ficou no soro, tomou injeção e depois liberaram ele para ir embora. Marcos disse que não poderia ir porque não era dor de estômago e que estava com muita dor. O vizinho também insistiu para não mandarem ele embora, mas não teve jeito”.

Edmar relatou que às quatro e meia da manhã do dia 25 de fevereiro a situação piorou ainda mais.  Marcos rolou de dor na cama, vomitou e implorou por socorro até morrer. “Minha mãe ligou para o Samu e foi informada que iriam vir, depois de meia hora a médica ligou falando que não era caso grave e que ela poderia arrumar alguém para levá-lo para o PA.  Ele falou com minha mãe que não iria aguentar mais e iria morrer. Ela ligou de novo falando e os vizinhos também pediram socorro para o Samu e nada. Quando foi cinco horas ele falou novamente que não aguentava mais e iria morrer, cinco minutos depois minha mãe balançou ele e já estava morto”.

De acordo com amigos de Marcos, o Samu foi acionado e não prestou socorro.

Segundo Edmar, após a morte de Marcos os vizinhos continuaram pedindo socorro e não conseguiram ser atendidos. “O Samu disse que estava mandando a ambulância para o local e não apareceu ninguém. Quando foi seis horas eu liguei de novo para o Samu e também para a polícia e bombeiros. O único apoio que recebemos foi da Polícia Civil, mas eles não estiveram lá na hora.  Às dez e pouco da manhã o Samu me informou que a ambulância já tinha ido ao local e constatado o óbito, mas eu estava lá e não apareceu ninguém.  Já ia dar meio dia e ninguém apareceu para retirar o corpo. Eu fechei a casa com o corpo dentro e depois a Polícia Civil ligou dizendo que estava mandando o rabecão, mas depois ligaram avisando que não estavam achando o local. Eu fui lá esperar eles e encontrei o carro da funerária já estava resgatando o corpo”.

O atestado de óbito apresenta apendicite como causa da morte e o amigo afirmou que ” o perito falou que se ele tivesse sido atendido, não teria morrido. Ele morreu porque a apendicite estava para estourar e ninguém fez o exame nele. Acabou estourando e ele veio a óbito”.

O atestado de óbito apresenta apendicite como causa da morte .

Indignado, ele também relatou que Marcos foi enterrado de cueca. “O pessoal deu uma sacola de roupa para ele ser enterrado, mas do jeito que ele saiu de cueca foi enterrado”.  Após a morte do amigo, Edmar clama por justiça. “A gente quer justiça por causa do atendimento médico e a negligência que fez com que ele morresse”. A irmã de Marcos, Leda de Abreu da Silva, 30 anos, revelou que ele era o mais velho de cinco irmãos e deixou um filho de 11 anos.  Ela também reclamou do atendimento médico.

“Me sinto horrorizada e com muita raiva. Se eu pudesse, processava esse hospital porque foi muita negligência da parte deles. Foi horrível eles terem feito isso porque se eles tivessem atendido ele, não estaria morto. Trataram ele como um cachorro e a gente está indignado com isso.  Tem cinco meses que perdi meu outro irmão, de 26 anos, que deu infarto. Agora foi o Marcos, só sobrou eu e o mais novo”, lamentou Leda.

PREFEITURA: A Secretaria Municipal de Saúde afirmou que já tem conhecimento sobre o caso e, inclusive, já foi solicitado o prontuário de atendimento do paciente na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) para que sejam apurados os fatos. Qualquer providência só poderá ser tomada após a análise desses documentos. A Secretaria lamenta a morte do paciente e afirma que a apuração será feita com exatidão.

Samu: A coordenação do SAMU 192 lamenta o óbito e informa que há o registro de um chamado com solicitação de atendimento para o paciente citado no dia 25 de fevereiro, às 5h44.

CRM:  O Conselho Regional de Medicina (CRM- ES) esclareceu que não recebeu denúncia sobre o caso. Toda denúncia feita oficialmente ao CRM-ES é verificada e aberta Sindicância para apurar se há indícios de infração do Código de Ética Médica. Em caso afirmativo, é aberto Processo Ético Profissional, com todas as partes envolvidas sendo convocadas para depor.

Na confirmação de infração ao Código de Ética Médica, o CRM-ES aplica a punição adequada ao caso, que pode variar de advertência confidencial em aviso reservado, censura confidencial em aviso reservado, censura pública com publicação no Diário Oficial da União e jornal de grande circulação, suspensão por até 30 dias da atividade profissional e cassação do exercício profissional. Para todas as punições aplicadas pelos conselhos regionais cabe recurso ao Conselho Federal de Medicina (CFM).

Caso os familiares queiram registrar a denúncia, ela deve ser feita oficialmente, de preferência, com apresentação do receituário prescrito pelo médico, nome do médico que prestou atendimento, dia e horário em que o paciente foi atendido e outros documentos que a família ou o paciente julgarem importantes. Se não puder comparecer pessoalmente ao CRM-ES, é necessário enviar cópia autenticada da documentação e um relato do caso, devidamente datado e assinado pelo denunciante.

É imprescindível que o denunciante informe o nome completo, juntamente com o número da identidade e do CPF. Denúncias anônimas não são aceitas pelo Conselho de Medicina. O endereço do CRM-ES é rua Professora Emilia Franklin Mululo, n.º  228, Bento Ferreira , Vitória (ES), CEP 29.050-730.

Compartilhe AGORA:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *