O grande escritor brasileiro Ariano Suassuna, em palestra proferida na Universidade de Brasília (Unb), saiu em defesa da “música brasileira de qualidade”, tecendo críticas as músicas cujos versos são marcados por expressões vazias como o “oh, oh, oh” e suas variáveis igualmente pobres. Denunciou o escritor a qualidade das letras e o valor que o mercado musical brasileiro cria entorno dessas músicas, assim como a falta de acesso a obras mais apuradas e ricas.

Suassuna assim proferiu sua denúncia:

“Eu tenho a obrigação de mostrar ao povo uma alternativa a essa ‘arte de quarta categoria’ que andam espelhando ai. Corrompendo o gosto de nosso povo, do nosso grande povo. Procurando nivelar tudo pelo gosto médio. Isso é uma coisa triste. Não pode. Um pais como o Brasil, um povo como o brasileiro ele tem direito a outra coisa.

Meu amigo do peito ficava danado quando o pessoal dizia que o cachorro gosta de osso. Ele dizia que só dão osso para o cachorro. O cachorro é doido por comida. Bote um filé e bote um osso e veja o que o cachorro escolhe. O que me está deixando indignado é que não estão dando direito ao povo brasileiro, principalmente ao jovens, o direito de entrar em contato com o filé. Só dão osso a eles”.

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“Eu tenho a obrigação de mostrar ao povo uma alternativa a essa ‘arte de quarta categoria’ que andam espelhando ai”

Suassuna toca em um ponto bastante “espinhoso”, já que a população desprovida de educação musical também tem o direito de se expressar por meio dessa arte. É importante destacar que Ariano Suassuna não deseja cercear o direito de compor músicas de melodias não criativas e letras que ferem a gramática portuguesa, mas defender o direito de que todo o brasileiro tenha acesso a belas composições, em suas palavras, ao filé.

Alguns poderão contestar dizendo que “gosto cada um tem o seu”. Na verdade essa expressão é equivocada. A admiração por algo, assim como o julgamento do que é belo ou feio é uma dimensão cultural, produzida e reproduzida socialmente. O que julgamos ser bom ou ruim é reflexo do parâmetro de julgamento do nosso grupo social. É nesse ponto que Suassuana toca com genialidade: o problema não está em quem gosta de “osso”, mas no fato de darem apenas osso a esses.

Se o gosto é uma construção social, dificilmente alguém que não teve acesso ao valor da história local e as raízes brasileiras, sobretudo nordestinas, irá admirar como bela a obra “O alto da Compadecida”. Uma criança que cresce ouvindo “oh, oh, oh” e suas variáveis dificilmente irá admirar as composições de Tom Jobim.

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“Ele dizia que só dão osso para o cachorro. O cachorro é doido por comida. Bote um filé e bote um osso e veja o que o cachorro escolhe”

Suassuna propõe dar condições de que todos tenham acesso a músicas de qualidade, ao melhor “filé” que temos em terras tupiniquins. Depois disso, se quiserem osso, será uma questão de escolha. O que ele não concorda é dar apenas “osso e dizer que o se gosta de osso”. Em outras palavras, o que não é aceitável é a mídia brasileira vender apenas os “oh, oh, oh” e suas variáveis e afirmar que isso é o que o brasileiro gosta e quer; que isso é o que pede o “mercado”.

Eu, particularmente, prefiro filé. Mas, ao meu ver, a questão não é gostar de filé ou de osso, o problema é achar que prefere um sem ter saboreado o outro. Entre ossos e filés deve haver a possibilidade de escolha. Para Suassuna, quem como filé uma vez nunca mais vai querer comer osso.

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