Após seis horas de incêndio no Museu Nacional do Rio de Janeiro, na última noite de domingo para segunda-feira, com a perda de patrimônio de valor inestimável para a humanidade, olhares se voltam para possíveis problemas de preservação dos Patrimônios Históricos de Guarapari.

Em entrevista ao Portal 27, o historiador José Amaral, declara que o acontecimento no Museu Nacional já era uma “tragédia anunciada”. De acordo com ele, é necessário que existam “políticas afirmativas no setor de preservação, que o IBRAM (Instituto Brasileiro de Museus), seja realmente um órgão que tenha um poder de executar as políticas públicas, pois senão, o que aconteceu no Museu Nacional, vai ser apenas mais um caso de devastação da nossa cultura, história, ciência e identidade nacional” afirma.

Olhares se voltam para possíveis problemas de preservação dos Patrimônios Históricos de Guarapari. Foto da Antiga Matriz Nossa Senhora da Conceição. Foto: Divulgação.

ABANDONADOS. Segundo José Amaral, todos os Patrimônios Históricos de Guarapari estão abandonados, “não existe nenhum que seja cuidado, talvez o mais preservado é a Igreja de Nossa Senhora da Conceição, antiga matriz, antiga capela dos Jesuítas, que no século XVIII virou a Igreja, quando a igreja da vila virou a ruína que é hoje”, diz.

Amaral destaca o fato de Guarapari, com tantas empresas de construção civil, não ter pensado ainda em “uma legislação para se proteger os bens e imóveis da cidade, a gente só tem um imóvel que é tombado, que é a igreja de Nossa Senhora da Conceição e nossa Câmara de Vereadores não se pronuncia em relação a nada de política de preservação de patrimônio, nossa prefeitura muito menos”, explica ele.  

“Todo o nosso patrimônio histórico está hoje ameaçado”, diz historiador.

O historiador ressalta que há falta de compromisso e descaso da cidade em relação à preservação dos patrimônios culturais. “Todo o nosso patrimônio histórico está hoje ameaçado”, destaca. Segundo ele “falta de identidade de legisladores e gestores com a cidade de Guarapari. E os poucos patrimônios ainda preservados, como a Igreja já citada e a gruta dos Jesuítas, devem-se ao esforço da população”, afirma.

CONSELHO. Para que os patrimônios não desapareçam, José Amaral defende a criação “do Conselho Municipal de Cultura com uma pasta específica para gerir as políticas culturais do município e que essa pasta seja conduzida de maneira profissional”. Ele rememora o pacto assinado em 2005 com o Sistema Nacional de Cultura que de acordo com ele, não foi cumprido, pois a cidade “se comprometia a criar, ao longo dos anos seguintes, um órgão específico para gestão da cultura no município, um Conselho Municipal de Cultura e um Fundo de Cultura”, diz.

Ruínas. Amaral destaca medidas mais pontuais em Guarapari, como é o caso das ruínas da Igreja Nossa Senhora da Conceição que já caíram, o que mostra um descaso do município. “Mesmo que exista um Plano Diretor Municipal, um capítulo que verse sobre a proteção dos bens imóveis, dos bens culturais, dos bens artísticos de nossa cidade, nenhum de nossos legisladores, nenhum de nossos poderes executivos propôs ainda uma lei, por exemplo, que condicione grandes empreendimentos a fazerem investimentos na preservação de bens culturais à cidade”, afirmou. “qualquer construtora que faz um prédio poderia já ter executado um projeto pelo menos de estruturação daquela ruína, pra que ela não continue caindo”, critica.  

Para que os patrimônios não desapareçam, José Amaral defende a criação “do Conselho Municipal de Cultura. Ruínas da Igreja Nossa Senhora da Conceição.

RADIUM. O historiador destaca ainda a urgência em se preservar o Radium Hotel, que “está em uma área de grande especulação imobiliária e por já ameaçar cair algumas partes dele”, e a antiga sede da Prefeitura Municipal, que já foi casa da cultura, já foi biblioteca e está atualmente fechada, logo, “tende a deteriorar-se”, afirma.

Historiador destaca ainda a urgência em se preservar o Radium Hotel. Foto Marcelo Moryan

PLANO DIRETOR. Por fim, Amaral deseja que Guarapari aproveite o capítulo do Plano Diretor Municipal para preservar o que ele chama de “testemunhos vivos de nossa evolução, nossa referência de passado”, ou seja, os Patrimônios Históricos que revelam a identidade de nossa cidade. Acredita ser possível, dessa forma, valorizar o turismo da cidade, de modo que ela receba visitantes não somente no verão, mas sazonalmente e em fins de semana, que venham conhecer nossos patrimônios Históricos e tudo o que a cidade tem de bom.