A perda de um ente querido já não é uma coisa fácil, agora imagine o que é perder um familiar ou amigo e sofrer ao imaginar que sua morte poderia ter sido evitada com um atendimento médico de qualidade. Em reportagem especial o Portal 27 vai mostrar que este é o drama que duas famílias da cidade e elas acusam a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de negligência médica.

Francisco Gomes de Oliveira, de 66 anos, morreu no dia 18 de janeiro,

A primeira é a família de Francisco Gomes de Oliveira, de 66 anos. Ele morreu no dia 18 de janeiro quando buscou o segundo atendimento na UPA. A filha Maria Cláudia Cardoso revelou que o pai foi atendido pela primeira vez no dia 17 pelo médico Francisco Loures, que o diagnosticou com dengue. “O diagnóstico do médico foi dengue, mas ele simplesmente deu uma injeção para dor e mandou meu pai para casa. No outro dia ele piorou porque ele já era idoso e diabético, então o caso dele piorou muito e quando retornamos com ele já não teve jeito mais”, disse a filha.

Segundo Cláudia, o atestado de óbito apresenta a causa da morte como doença febril aguda, mas não especifica se foi causada por dengue ou febre amarela.  Ela acusa o médico de negligência e revelou que outro médico que atendeu seu pai no dia em que ele morreu, chamou atenção do colega que prestou o primeiro atendimento.

“Ele foi negligente, ele não fez nada. Não internou, só deu uma injeção para dor e mandou meu pai embora para casa. Não fez exames nem nada. Tanto que no dia seguinte o outro médico que o atendeu ficou sem saber como ele chegou em um estágio tão grave daquele com diagnóstico de dengue. Vi ele telefonando para o primeiro médico e falando como ele deu um diagnóstico de dengue e mandou ele para casa. Disse que não estava entendendo o que aconteceu de verdade para ele chegar nesse estágio, uma evolução tão rápida e tão fatal”.

Ela afirmou que no dia da morte o pai já não conseguia nem enxergar e estava fraco.

Ela ainda questionou o porquê o médico não tratou a dengue, já que havia diagnosticado a doença. “Porque ele não internou? Porque ele não mandou para a hidratação? Não, ele deu uma injeção para dor e pronto. Por que não mandou ele fazer mais exames? Não, fez exame de sangue e que fez o raio x e o pulmão estava limpinho. Mas é só isso? Dá uma injeção para dor e vai embora? Fala que é dengue e não faz nada? Eu já tive dengue e eles me deixaram lá tomando dois vidros de soro e ele já idoso com o diagnóstico de dengue não toma nada?”.

Paradas cardíacas. Ela afirmou que no dia da morte o pai já não conseguia nem enxergar e estava fraco. “Ele não conseguia enxergar nada, eu carreguei ele e coloquei no carro. Quando nós chegamos coloquei o carro na garagem do PA e ele já teve a primeira convulsão. Minha mãe ficou lá dentro com ele porque não podia ficar dois acompanhantes e depois minha mãe falou que em uma hora que chegamos lá meu pai tinha tido seis paradas cardíacas. Depois ele teve mais e quando foi duas horas da tarde ele não resistiu”, lamentou.

“Eu sou professora, ganho pouco também”

Revoltada com a morte do pai, Cláudia afirmou que “ele podia estar aqui. Porque o médico não cuidou? Porque não deu atenção? Dá uma injeção para dor e manda embora?  Não é apenas tomar uma injeção. Se a pessoa está sentindo dor e é uma coisa mais séria tem que fazer exames, mandar para um hospital com mais recurso. Manda para Vitória, mas faz alguma coisa. Isso é falta de zelo, de cuidado, de honrar com o discurso que faz na formatura. É porque ganha pouco? Outros profissionais também ganham pouco, neste país só político que não ganha pouco. Porque ganha pouco pode fazer o serviço de qualquer jeito? Sair matando? Eu sou professora, ganho pouco também e nem por isso, vou sair aleijando e matando meus alunos não”.

“Ele podia estar aqui. Porque o médico não cuidou? Porque não deu atenção? Dá uma injeção para dor e manda embora?”

Ela disse ainda que pretende entrar com um processo. “Tenho que ir na Defensoria Pública porque Guarapari é uma cidade pequena e todo advogado meio que foge e os que aceitam querem cobrar caro. É uma cidade pequena e um médico tradicional então não sei qual o caminho para falar tem que tirar este cara daí porque ele vai continuar matando. Um amigo paramédico já falou que esse médico parece que tem gosto em ter óbito nas costas. Ele já  presenciou outras situações parecidas  envolvendo esse médico”.

Defesa. O Portal 27 entrou em contato com o médico Francisco Loures por telefone no último dia 06, mas ele afirmou que estava trabalhando e não poderia parar para conversar. Questionado sobre quando poderia ser ouvido ele respondeu que “Para mim é difícil, trabalho de dia e de noite. Não sei o que está acontecendo, é melhor pessoalmente. Você pode vir amanhã ou depois em qualquer horário. Eu estou aqui amanhã à noite, quarta à noite estou aqui e sexta de dia estou aqui”., disse ele.

Nesta sexta-feira (10) nossa equipe esteve na UPA às duas da tarde e foi informada de que o médico estava descansando e não poderia ser interrompido. Mesmo assim ligamos para ele e o telefone estava desligado. Às seis e meia da noite equipe voltou a UPA e dois funcionários procuraram pelo médico e não o encontraram, um deles chegou a verificar se o carro do doutor Francisco estava no estacionamento e constatou que o médico foi embora meia hora antes de terminar o seu expediente, já que deveria trabalhar das sete da manhã às sete da noite.

Nesta sexta-feira (10) nossa equipe esteve na UPA às duas da tarde e foi informada de que o médico estava descansando,

PREFEITURA: A  Secretaria Municipal de Saúde afirmou que “já tem conhecimento sobre o caso e, inclusive, já foi solicitado o prontuário de atendimento do paciente na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) para que sejam apurados os fatos. Qualquer providência só poderá ser tomada após a análise desses documentos. A Secretaria lamenta a morte do paciente e afirma que a apuração será feita com exatidão.”

CRM:  O Conselho Regional de Medicina (CRM) esclareceu que não recebeu denúncia sobre o caso. Toda denúncia feita oficialmente ao CRM-ES é verificada e aberta Sindicância para apurar se há indícios de infração do Código de Ética Médica. Em caso afirmativo, é aberto Processo Ético Profissional, com todas as partes envolvidas sendo convocadas para depor.

Na confirmação de infração ao Código de Ética Médica, o CRM-ES aplica a punição adequada ao caso, que pode variar de advertência confidencial em aviso reservado, censura confidencial em aviso reservado, censura pública com publicação no Diário Oficial da União e jornal de grande circulação, suspensão por até 30 dias da atividade profissional e cassação do exercício profissional. Para todas as punições aplicadas pelos conselhos regionais cabe recurso ao Conselho Federal de Medicina (CFM).

Caso os familiares queiram registrar a denúncia, ela deve ser feita oficialmente, de preferência, com apresentação do receituário prescrito pelo médico, nome do médico que prestou atendimento, dia e horário em que o paciente foi atendido e outros documentos que a família ou o paciente julgarem importantes.

Se não puder comparecer pessoalmente ao CRM-ES, é necessário enviar cópia autenticada da documentação e um relato do caso, devidamente datado e assinado pelo denunciante. É imprescindível que o denunciante informe o nome completo, juntamente com o número da identidade e do CPF. Denúncias anônimas não são aceitas pelo Conselho de Medicina.

O endereço do CRM-ES é Rua Professora Emilia Franklin Mululo, n.º 228, Bento Ferreira , Vitória (ES), CEP 29.050-730.

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