FILTRO CULTURAL | O terror moderno trocou os casarões mal-assombrados pela banalidade dos espaços corporativos. A adaptação cinematográfica de Backrooms: Um Não-Lugar, produzida pela A24 e capitaneada por Kane Parsons, permeia entre evidenciar o fenômeno estético de found footage e materializar, arquitetonicamente, o maior mal do século XXI: a evitação emocional.

Ao transformar o labirinto infinito de paredes amarelas e carpetes úmidos em uma metáfora sobre a nossa incapacidade de lidar com o que sentimos, o filme se estabelece como o espelho sem piedade de uma geração que se especializou em fugir de si mesma até que o espaço ao redor se torne absolutamente insustentável. Toda a atmosfera é embalsamada num quase silêncio ensurdecedor: a trilha sonora do filme, dominada pelo ruído contínuo das calhas de luz, representa aquela ansiedade crônica de baixa intensidade. Afinal, nada mais comum do que aprender a conviver com o barulho de fundo, fingindo que ele não está drenando nossa sanidade.
Fugir do óbvio, no contexto de Backrooms, significa desassociar o monstro de sua face óbvia. O horror do longa reside no próprio ato de caminhar sem destino, e não no temor de uma criatura qualquer. Perpétuo, o movimento é reflexo de como a sociedade contemporânea lida com a dor, o luto e a ansiedade: em vez de confrontar o desconforto, escolhe-se fugir da realidade sufocante. Preferimos navegar pelo vazio anestesiante das redes sociais, do trabalho excessivo ou da superficialidade a ter que parar e escutar o que nos machuca.
Estamos satisfeitos em fugir, contanto que a fuga nos mantenha ocupados.
Backrooms é, acima de qualquer suspeita, um manifesto à covardia emocional organizada. Transformando o ato de ignorar os sentimentos em um thriller de sobrevivência arquitetônico, o filme entrega uma crítica ácida ao estilo de vida moderno. A narrativa grita, com a sutileza de um zumbido elétrico, que construir paredes em volta da própria dor não nos protege dela. Só nos tranca do lado de dentro de um escritório infinito, onde a única saída é parar de correr e finalmente olhar para trás.
Backrooms: Um Não-Lugar está disponível nos cinemas.









