Dois pacientes com tuberculose que estão internados na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Guarapari estão prestes a receber alta. A notícia parece boa, mas na verdade está causando indignação em uma aposentada, que prefere ser identificada apenas como Estela. Isso, porque os dois são moradores de rua e não tem condições de dar continuidade ao tratamento fora do ambiente hospitalar.

Dona Estela relatou que um dos pacientes se chama Clauber Rodrigues Ramos, de 37 anos. Já o outro ela não sabe nem o nome, mas mesmo assim não se conforma com a situação deles. “Os dois rapazes não têm família. Eles estão tuberculosos e estão internados lá só há três dias, mas uma enfermeira já avisou que vão colocar eles na rua para continuarem o tratamento em casa. O problema é que eles não têm casa e dormem nas praças. Não aceito isso”.

Os pacientes não têm como continuar o tratamento.

“O município tem que arrumar um lugar para pôr os dois. São uns pobres coitados que não tem o que comer. O tratamento contra tuberculose é violento. Se a pessoa não comer, causa até úlcera no estômago de tão forte que é o remédio. Como os dois vão tomar esses remédios violentos? Vão comer o que? Quero que eles socorram esses dois rapazes. Liguei para a Secretaria de Saúde para reclamar, mas ninguém quis me atender”, disse indignada.

Ela afirmou que esteve com o Clauber diversas vezes na UPA e só depois de muita insistência chegaram ao diagnóstico de tuberculose. “Tive que ir lá e brigar com o médico de plantão para interná-lo. Pedi aos outros médicos para tirar o raio x e eles diziam que não precisava. Apenas passavam um remédio para gripe e mandavam ele ir embora. Aí esse médico fez o raio x e constatou que ele estava com tuberculose avançadíssima. Ele me mostrou o exame e me disse que estava aguardando uma vaga para ele em Vitória, só que não saiu a vaga e eles querem colocar os dois na rua”.

Estela também contou que conhece o Clauber a pelo menos 20 anos porque ele morou com os pais no mesmo prédio que ela. Segundo a aposentada, os pais dele morreram e seus únicos familiares são a ex-mulher e uma filha pequena que moram no Rio de Janeiro e eles já não têm nenhum contato faz tempo. Ela disse ainda que Clauber foi morar nas ruas por conta do vício em drogas. “Ele é formado em administração e era controlador de voo no Rio de Janeiro. Mas perdeu o emprego, ficou desesperado e entrou na droga. Eu até paguei o enterro dos pais dele porque eles não tinham mais dinheiro porque ele gastou tudo com a droga. Mas apesar de ser um dependente químico, ele é muito educado”, disse a idosa.

Alimentação. Já o outro rapaz a aposentada conheceu na UPA quando conseguiu internar o Clauber. Ela disse que desde então está alimentando os dois lá dentro. “Eu estou sustentando os dois na UPA. Faço uma coleta das coisas com os amigos do meu prédio e levo lá. Quando não posso ir, minha amiga leva o café da manhã e o porteiro do meu prédio, que mora em frente a UPA, leva o café da tarde com as coisas da compra que fiz e deixei na casa dele. Isso porque lá na UPA eles só dão uma quentinha no almoço e na janta. Café da manhã e da tarde nunca teve. Mas também sou aposentada e idosa e não tenho como fazer mais por eles”.

Segundo ela, Clauber também é portador do vírus HIV, o que agrava ainda mais a situação. “Acho que a Secretaria de Saúde tem que procurar a vaga para eles em outro lugar. O Clauber é também soro positivo e está muito debilitado. Eu até estava pagando R$ 50,00 em um quarto para ele morar no Ipiranga porque não poderia tomar friagem com essa doença. Mas quando o dono do quarto ficou sabendo que ele estava tuberculoso não quis ele mais lá”.

A aposentada disse que não tem condições de acolher os dois em sua casa e cobrou uma atitude do município. “Sou aposentada e tenho um filho doente e vivo em função dele. Também trabalho em dois lugares para sustentar a gente porque o dinheiro não dá, por isso, não tenho como receber eles aqui. Mas a prefeitura tem que fazer alguma coisa para ajudar”, afirmou a idosa.  

O Portal 27 procurou a prefeitura para saber se esses pacientes realmente vão receber alta, se eles não serão encaminhados para um abrigo para que possam dar continuidade ao tratamento e porque a UPA não fornece esses lanches aos pacientes e recebeu a seguinte resposta.
 
“A Secretaria Municipal de Saúde informa que não tem previsão de alta para esses dois pacientes que se encontram internados na Unidade de Pronto Atendimento (UPA). Eles estão cadastrados na Central Estadual de Regulação de Leitos aguardando vaga para serem transferidos para hospitais da Grande Vitória. Os dois estão recebendo acompanhamento através do programa de tuberculose e a unidade oferecem refeições para todos que ali se encontram internados aguardando vaga”.
 
 
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