Dia 02 de abril acontecerá um dos maiores eventos religiosos do Brasil e provavelmente o maior do Espírito Santo, a canonização do Beato José de Anchieta. Sei que muitos vão estranhar o fato de eu estar escrevendo sobre religião, e justamente por isso quero deixar claro que esse fato não se trata apenas de manifestação de religiosidade católica, mas de valorização de um homem que contribuiu de forma crucial para evolução da Literatura e da Dramaturgia brasileiras.

Benedito_Calixto_-_Evangelho_nas_Selvas,_1893_(ost,_58,5_x_70_cm_-_Padre_Anchieta)Talvez, sendo promovido a categoria de santo, nós capixabas passemos a enxergar não apenas “São José de Anchieta”, mas sim o intelectual “José de Anchieta”. Nesse momento impar, deveríamos lembrar todo o legado deixado no Brasil por esse homem que escolheu nossa terra para ser seu ultimo refúgio.

Muitos mitos circulam em torno de Anchieta chegando aos absurdos de lhe atribuírem características fantásticas, como o de caminhar de Reritiba, atual Anchieta, a Vitória em um período em que tal façanha pode ser considerada impossível não só devido a sua condição física, uma vez que tinha sérias sequelas de uma tuberculose, mas também porque nem todos os nativos eram simpáticos aos colonizadores e catequizadores, o que os tornava um prato apetitoso fora da segurança dos aldeamentos.

anchieta

Segundo Hélio Abranches Viotti, um dos maiores biógrafos de nosso novo santo, suas idas de Reritiba a Vitória eram feitas via marítima em um veleiro chamado Santa Úrsula. Se conseguisse ter feito esse trajeto a pé, há muito já teria sido considerado santo, pois isso somente seria possível de forma milagrosa e qualquer Papa dos últimos 400 anos sabia disso. Não apenas essa façanha milagrosa lhe é atribuída.images (1)

O número de aldeias e igrejas que teria fundado é também passiva de ser mais um milagre, pois seria humanamente impossível estar em tantos lugares e edificar tantos templos em tão pouco tempo. Isso me faz lembrar até Aleijadinho e as inúmeras peças que lhe são atribuídas em lugares onde jamais esteve.

Esquecemos, no entanto, principalmente nós capixabas, do grande intelectual José de Anchieta. Me chama a atenção que não possuímos nenhum registro significativo de suas grandes obras em nosso estado. As únicas são o Palácio Anchieta, sede do governo estadual e… E qual outra mesmo? Pois é, não temos. A rodovia que levava seu nome no trecho que atravessa Guarapari, cidade para onde mais dedicou seus autos e de onde teria também sido fundador, teve seu nome trocado pela Câmara Municipal, para o de um ex-prefeito.

Aquela casa de leis achou que este era mais importante que o pai da Literatura e Dramaturgia brasileiras. Compreendo isso, pois são assuntos aos quais nossos legisladores não são muito dados. Parece que não nos importamos muito com a preservação de nossa memória e isso, no caso de José de Anchieta, fica explícito no estado de abandono em que se encontra o museu e nacional dedicado a ele.

Recentemente teve o relicário de prata que guardava a relíquia do santo padre, um pedaço de sua tíbia roubado. O fato não teve atenção alguma por parte das autoridades e somente cerca de um ano após o furto ele foi inserido na relação de bens procurados do IPHAN. Mas, nenhuma medida para se conter um novo furto foi tomada e até bem pouco tempo a relíquia estava exposta no mesmo expositor ainda com o vidro quebrado.Padre Anchieta - BRESCOLA

Na educação, foi revolucionário ao introduzir a dramaturgia como metodologia. Se a mais de 400 anos nosso índios aprendiam com teatro, hoje nossas crianças ditas da sociedade civilizada tem a Arte como apenas uma disciplina a mais e que sobrevive a duras penas, mais por insistência dos profissionais da área que por vontade estatal e dos estabelecimentos particulares de ensino. Acho que no século XVI nossa educação era mais humana, embora tivesse fins catequéticos.

Sei que muitos acusam o novo santo de pecados mortais como molestar, castigar, aculturar e outras coisas mais. Mas, nesse momento impar, poderíamos mudar o foco de visão tanto de santo quanto de demônio e lembrar a contribuição que o legado de José de Anchieta pode trazer a nossa evolução social, intelectual e espiritual.

ZinhoJosé Amaral Fernandes Filho
Historiador