(A crônica é longa… mas agora você tem tempo né – rs?)

Eu ainda me lembro de um dia antes do mundo acabar, degustava uma xícara de café requentada no meio da madrugada, conversava com meus fantasmas, companheiros de insônia e relia pela décima quinta vez o romance “O Signo dos Quatro”, escrito por Arthur Conan Doyle.

A certa altura li da boca de Sherlock Holmes um infalível pressentimento: “Elimine o impossível, e o que restar, por mais improvável que pareça, deve ser verdade”.

A conclusão, por mais avassaladora que fosse, e não importava muito quantas vezes eu já tivesse lido, tinha sempre a mesma interrogação no fim da linha… será?

Obra Solidão – Foto: Marcelo Moryan

Faltava-me eliminar o “IMPOSSÍVEL”, mas qual pobre mortal você conhece que consegue fazer isso com o firme propósito de obter a VERDADE mais pura e cristalina para os seus embates filosóficos?

Confesso (1), sem vergonha, minha tara sempre foi eliminar todas as máscaras do “impossível” e descobrir o quão indecentes e farsantes todos nós somos – falamos uma coisa e fazemos outra. Somos mestres na arte de enganar e sermos enganados.

Confesso (2) que sou um privilegiado em estar vivo para ver com os próprios olhos que a terra há de comer, que não precisou de uma catástrofe sísmica, um meteoro dinossáurico, um caos cibernético ou bombardeios nucleares para ver o MUNDO ACABAR – precisou apenas de um organismo acelular, o COVID-19.

Ao eliminar o “IMPOSSÍVEL”, O Covid-19 mostra-nos a verdade Sherlockiana:

Tempo – vivemos desesperadamente dizendo que queremos “TEMPO”, eis que agora o temos de sobra… e o que fazemos? Provamos que gostamos das coisas como elas sempre foram – com uma semana de isolamento social já queremos a perturbação do trânsito caótico, da fumaça das caldeiras, das chaminés do tal progresso. Isso sem falar do corre-corre do café da manhã tomado às pressas no elevador, no beijo trivial ou na melhor das hipóteses roubado enquanto se despede de um ente querido. O que importa mesmo é correr, correr e correr poque talvez algum dia a gente chegue “LÁ”. Lá, lugar que ninguém sabe onde é.

Família – No meio de toda esta bagunça acabamos por descobrir que amar não é bem como sempre imaginávamos – “AMAR” requer convivência e no tal confinamento que vivemos, muitas grosserias já deram as caras, violências domésticas já inflaram o alarmante índice do feminicídio.

Respeito – Esta é apenas mais uma palavra idiota, poucos são os que de fato a praticam, o mais comum são as réplicas e tréplicas de palavrões em contraponto às opiniões equilibradas ou coerentes sobre qualquer assunto. O que vale mesmo é ser “xiita” mandar o outro tomar lá naquele lugar que Judas perdeu as botas. Até o Papa Francisco já entrou para roll dos sacos de pancadas do Bullying.

– Coitada da fé, somos quase todos “Tomé” – só a ousamos ter depois do Milagre ou no mínimo só agradamos os santos depois do leite derramado. O Covid-19 está aí para provar isso, não adianta dizer que “VAI PASSAR”, para nós, acostumados com o metrô abarrotado, já devia ter passado – afinal ninguém quer ser buda ou exercitar a paciência.

deus – OMG! deus é brasileiro. Não somos governados por um (rs)? Aliás seu nome deixou de ser Messias, agora é Cloroquina.

COVID-19 – Era para ser o milagre que a humanidade esperava, o elo que faltava para unir todas as fronteiras, a oportunidade de remissão das nossas faltas, mas qual está sendo o resultado? Ódio… dizem a más línguas que no Brasil os “haters” têm até gabinete.

Solidariedade – Nem tudo são mazelas, o Brasil é a nação mais solidária do mundo, será que é por isso que o tal Covid-19 resolveu bater menos com a sua vara de goiaba? Aqui precisamos abrir umas aspas grandonas para a verdade: “Solidariedade é algo que pobre entende muito bem” – veja o caso de Paraisópolis, comunidade de São Paulo com mais de 100.000 habitantes, que abandonada por políticas públicas, elegeu 420 presidentes de rua e juntos arrecadaram centavos aqui, centavos ali e conseguiram contratar dois médicos, dois enfermeiros e três socorristas. Tudo isso fora as mil marmitas que os próprios moradores doam entre si – quem tem 02 colheres de arroz doa uma para o vizinho – É outro Brasil que o “cloroquina” não conhece.

Esperança – (?) Uma incógnita, não sei se ainda vale a pena continuar acreditando que no “FIM” tudo vai dar certo… já não estamos depois do “FIM” (rs rs)?

No FIM… no fim mesmo, percebo porque adoro tanto Sherlock Holmes que certa vez, entre tantas tiradas catárticas, disse: “Eu passo a minha vida tentando escapar das coisas banais e corriqueiras” – Ponto para Sherlock, que se tivesse de desvendar o mistério do COVID-19 chegaria às minhas conclusões:

NÃO preciso mais fugir das coisas banais – este mundo é exatamente assim – BANAL!

Ou o mundo não acabou Sherlock?

– Elementar, meu caro Marcelo!

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