Moisés, morador em situação de rua – na entrada da Catedral de Brasília.

TRISTE OLHAR

Até um cego julga com o “olhar” que não tem. Julgar com os olhos é um magnetismo do qual ninguém, por mais puro que seja, consegue fugir – Se você é um Homo sapiens, é praticamente certo que “julga” com o olhar. Literalmente o faz com sua vertente “Homo” (homem) e quase nunca com seu lado esquecido, o “Sapiens” (Sábio).

Quero convidá-lo para uma reflexão gritante que salta aos olhos e vai além da percepção artificial de nossas pupilas – O Crescimento alarmante do número de Moradores de Rua.

ENXERGANDO OS DADOS

Por onde quer que você ande nesse mundão – qualquer lugar mesmo, da badalada e chique Oscar Freire em São Paulo às ruas de Guarapari – ES, há de encontrar moradores em situação de rua. Este é um problema social que está no DNA de qualquer sociedade.

O Brasil, segundo pesquisa do IPEA em 2017, tinha uma população de aprox. 101 mil moradores de rua e em 2020 este número deve ser estratosférico – isso é muito fácil de ser observado, basta uma caminhadinha pelo seu bairro. Para se ter uma ideia de como esta cratera social não para de se aprofundar, de 2007 a 2017 o crescimento foi de 150% na cidade do Rio de Janeiro.

Diversas pesquisas, entre elas a Pesquisa Nacional sobre a População em Situação de Rua (de 2008 – a mais recente), apontam um engano de quem julga apenas com os olhos: 70,9% exerce alguma atividade econômica e 58,6% afirma ter uma profissão. As atividades desta parte da população são: catador de materiais recicláveis (27,5%), “flanelinha” (14,1%), trabalhos na construção civil, “pedreiro” (6,3%), entre outras.

O que faz uma pessoa morar na rua? Eis alguns dados: alcoolismo ou uso de drogas (35,5%), perda de emprego (29,8%) e conflitos familiares (29,1%).

ENXERGANDO A COMPLEXIDADE

A primeira pedra que jogamos neste fosso abismal é: “Fulano é morador de rua porque é um drogado”. Preferimos julgamentos simplórios a enxergar que, fora as relações nem sempre matemáticas da mente, o verdadeiro problema está na GANÂNCIA acerca da divisão do nosso pedacinho de mundo – onde, apesar de já termos o suficiente, queremos sempre mais… mais e mais.

Este “querer sempre mais” vai derrubando nossas relações com o outro, em todos os níveis – emocional, econômico, etc… e nos impedindo de ter um mundo mais justo e solidário. Exemplo raso: Qual fundamento tem você ter 100 camisas se apenas 10 já lhe bastam?

Voltando um pouco acima: Ninguém fica drogado gratuitamente. O que o faz chegar nesse ponto são as nossas relações “homo sapiens”, muitas vezes familiares – então, não é “mimimi” tampouco polarização, é contraponto social mesmo, têm muitas histórias por detrás de cada Morador de Rua, em alguns casos muito trágicas.

ENXERGANDO A SOLUÇÃO

Solução? Pela longa convivência que tenho com Moradores de Rua através das minhas fotografias (não apenas fotografo… participo do dia a dia de alguns), eu não tenho esperança que esta situação de fato algum dia se mova na direção “crística”, apenas que podemos torná-la menos “crítica” – e isso inclui nossos julgamentos rasos com o olhar; se cada olhar transformasse distâncias em abraços, diálogos ou intimidades – aí então teríamos uma semente para regar e sonhar com a tão almejada igualdade.

ENXERGANDO O INVISÍVEL

Olhar para dentro de nós mesmos pode ser um bom começo para enxergar essa parte da população que em 99% dos casos só quer um abrigo em nossa alma – uma oportunidade para sair dos seus vícios ou superar seus ciclos de traumas.

Sempre é bom lembrar que nem todo Morador de Rua está na rua, alguns estão dentro de nossas casas, esperam apenas uma oportunidade para se livrar dos nossos açoites afetivos – o que os leva para margem não é o caminho, é a nossa USURA sentimental, psicológica e de poder.

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