A iniciativa de escolher um dia e separar um período para orar pelo Brasil é louvável demais. Gosto muito dessas ideias; embora não exista nada de novo nisso. Mas, é boa sim. O problema da igreja evangélica brasileira não é que ela não ora. Ela ora. Ela não ora, talvez, como deveria orar. Ela tende a orar mais, se as coisas não vão bem e orar menos (quem sabe bem orar), se as coisas foram bem. Mas, penso que o que falta na igreja evangélica brasileira é ela ser politizada. Esse é um de nossos sérios problemas que precisa ser resolvido com nossa disposição, distinção e destaque.

eu odeio políticaA verdade incontestável é que não gostamos de política. Admitamos e nos corrijamos. Não estou falando de uma cidade ou estado específico brasileiro. Seria pífia minha visão se me focasse localmente. Somos vinte e sete estados em toda federação brasileira. Falo de todos os ditos crentes que já foram chamados, numa época não tão bem distante, (quem tem lembrança curta não vai recordar) de “massa ignara” de toda essa nação. Aquele que está como membro de uma igreja evangélica e que se levanta conversando um assunto política, é visto e taxado, imediatamente como chato. Daí para frente, em muitas ocasiões ele (ou ela) é evitado. Isso é inegável.

Não tratar de assuntos políticos é tão gravemente errado quanto só falar em política! Vivo isso em muitos círculos intitulados “cristãos”. Infelizmente. Nos distanciamos de tudo que tem viés político. Não temos força para eleger, sequer, um vereador que represente os anseios sociais que pautam o Cristianismo e a sociedade, muito menos força para eleger um prefeito, deputado, senador, presidente da República etc. O paradoxo está no fato de que temos força e poder para isso. Mas, nem de longe temos coesão, foco e interesse nisso.

Tem gente dita “crente e membro de igreja evangélica” que é tão analfabeto político que por incontáveis vezes vota nulo. Deixe-me dizer algo para você. Quando um cidadão vota nulo, ele não está dando o seu direito de voto a absolutamente “ninguém”. Assim, esse mesmo cidadão não tem o poder, sequer, de reclamar de um buraco que encontrar na rua, a quem quer que seja. Muito menos malhar a gestão ruim de nenhum político eleito pelo voto direto do povo. Menos do dele. Depois fica reclamando dos governantes que comandam e decidem as maiores e as menores importantes decisões em seu tempo, quando nem mesmo sabem se comportar no cenário político social. Reclamar de que, se me excluo da minha própria responsabilidade social e política?

oraçãoVoltemos a oração. A oração é extremamente importante. Conte comigo para orar sempre. Mas, a oração não é a única coisa a ser feita em se tratando de justiça social. Há momentos em que o único caminho e alternativa é orar. Foi o Pr. Martin Luther King mesmo quem disse: “O que me preocupa não é o grito dos loucos. Mas, o silêncio dos sábios”. Pensemos nisso. Não adianta nada orar e não saber votar. A oração não muda as coisas. Ela muda as pessoas que mudam as coisas.

Muitos de nós nem sequer nos damos ao simples trabalho de procurar saber se os nomes que escolhemos para nos representar, possuem alguma formação superior ou não. Se é que escolhemos, pois, tenho minhas convicções e dúvidas.  Não é que quem tem um ou mais cursos superiores estejam imunes à corrupção. Não! Mil vezes, não. Mas, o universo acadêmico abre – irreversivelmente – o intelecto do indivíduo e, assim, os riscos são extremamente diminuídos e menores. Quem gosta de explorar a leitura sabe disso. Nós nem sequer nos preocupamos com as ideologias e nem mesmo as siglas dos partidos que escolhemos votar. Que nada! Nem pensamos nisso.

Nos perdemos e perecemos, não por falta de oração. Mas, por falta de sabedoria e por negligenciar o ensino, já lemos isso no texto bíblico de Oséias 4.6. As vozes dos doze profetas menores (Oséias era apenas um deles) eram todas voltadas para o bem-estar social das cidades e nações onde eles mesmos moravam, reservadas as mínimas falas. A crença ordinária e compartilhada pela maioria é de que se orarmos, então, Deus vai mudar a nossa nação. Em tese isso é verdade. Mas, não totalmente.

horário políticoHá, nessa afirmativa clara e aparente, a falta de nexo ou de lógica. Diria que uma contradição mesmo. Pregar o amor e ao mesmo tempo espancar os filhos é um paradoxo cavalal. Se compara a igreja local orar por sua cidade, pelo seu Estado e pelo Brasil e quando chega a hora da transmissão do horário político na TV (por exemplo) nós desligamos a televisão. Parte da resposta dessa oração que fazemos para que Deus abençoe nosso país, já está em nossas mãos. Deveríamos, seriamente, somente votar e eleger gente crente e séria. Falo isso apontando para o texto de Provérbios 29.2 “Quando os justos se multiplicam, o povo se alegra; o povo se aflige, quando o perverso governa.” Pensemos mais nisso.

Como igreja, a nossa bipolaridade política e social é gritante, ao passo que vergonhosa. Afinal de contas, tartaruga em cima de árvore, ou foi enchente ou mão de gente. Os “profissionais da politicagem (não da política) estão lá porque nós mesmos fomos quem os colocamos. Orar por nossa nação e pelos políticos que nós mesmos elegemos é bom e é nosso dever, já lemos isso em I Timóteo 2.1-6. Mas, já se foi a época em que orávamos e virávamos as costas para eles, deixando-os entregues a seu bel prazer por quatro longos anos, com a exceção do senador, onde sua gestão é de quase dez anos.

A igreja brasileira precisa despertar para a real necessidade de acompanhar de perto nas câmaras, nas assembleias, nos senados, parlamentos etc, a gestão daqueles que foram postos lá por nossas próprias mãos. Precisamos, de forma pacífica, ordeira e organizada, sair as ruas e protestar por toda injustiça social instalada e sentada com folga na sala de estar de nossa nação, em todas as instâncias. Nós, por acaso, não somos os “protestantes”? Mas, onde está nossa voz e nossa vez de protestar social e politicamente? Encerro minha fala na primeira pessoa, como até aqui, citando o Frei Betto. “Não tenham nojo de política. Quem tem nojo de política é governado por quem não tem”.

Kleberson Sergio de Andrade Kleberson Sergio de Andrade

Pastor batista, bacharel em teologia, pedagogo, pós-graduado em ética, filosofia, educação, docência do ensino superior, direitos humanos (graduando), capelania hospitalar, gestão escolar com habilitação em administração, supervisão, orientação e inspeção, licenciado em filosofia e sociologia, educador, professor de filosofia, política, legislação, ética e cidadania; e acadêmico do curso de psicanálise.