A enorme onda de furtos e assaltos que tem assolado-nos nesse tempo, nos leva a uma reflexão sobre a possiblidade real, iminente e constante em que somos apresentados a morte todos os dias.

Nenhum poder desde mundo, militar econômico ou cultural, pode manter a morte fora dos portões. Ela chega com suas mãos tenebrosas e frias, impondo angústia e dor. A morte põe, efetivamente, um termo na vida. A tão temida e evitada morte, na medida em que é uma ruptura, é também representada e vivida como “o nada que ameaça o ser”, numa leitura sob a perspectiva filosófica.

Nenhum poder desde mundo, militar econômico ou cultural, pode manter a morte fora dos portões.

Trata-se de um nada com um estatuto especial, pois a morte vem carregada de densidade ontológica – a morte não é um mero vazio, a morte não é o nada absoluto. Quem não sabe o que é a vida, como poderá saber o que é a morte? Já perguntava Confúcio. É mais ou menos consensual que o problema da morte entronca na magna e perene questão do sentido da vida.

Por isso, ao refletirmos sobre a morte, colocamo-nos no seio de uma questão central do pensamento filosófico e da história das ideias e cuja centralidade não decorre de uma disciplina de arrumação dos conceitos, mas por se tratar de uma interrogação que sempre inquietou o homem de todas as épocas, ao ponto de podermos dizer que o homem só é homem, só cumpre e realiza a sua humanidade essencial, na medida em que se interroga sobre o sentido da sua existência.

Quando interrogamos sobre a morte, também questionamos sobre a vida e o próprio homem. Quando este pensa a morte, é o sentido da vida, da sua vida, que é rasgado e arrastado da sua reflexão. A morte não é nada para nós, pois, quando existimos, não existe a morte, e quando existe a morte, não existimos mais, dizia Epicuro.

Ora, discorrer sobre a morte e o morrer nos leva a pensar a morte e o sentido da vida nas atuais condições do nosso mundo artificial, maravilhoso e virtual; como também somos levados a deixar de refletir sobre a vida em abstrato e preto e branco, para questionarmos o próprio viver concreto e no modo colorido.

A nossa realidade, dominada que está pelas tecnologias de informação e comunicação, a globalização do mundo e das culturas e o encolhimento da realidade, tudo isso são fatores que terão que ter consequências na situação do homem e dom mundo, a curto, médio e longo prazo de maneira irreversível, o que deve nos levar a repensar a morte por um solo mais aterrado.

Ao refletirmos sobre a morte, colocamo-nos no seio de uma questão central do pensamento filosófico

Dessa maneira, a morte que acontece, ocorre no seio dum viver completamente diferente do modo de viver (e de morrer) dos nossos pais e dos nossos avós. É preciso pensar a morte fora do seu cimentado concreto e bem distante do bojo e contexto ortodoxo tradicional da América Latina, voando numa reflexão que vai para além da vida e da sociedade ocidental e ocidentalizada, tão estigmatizada pelo sentimento da posse, do ter e do possuir, sobre todas as coisas, enquadradas pelas novas estruturas tecnocientíficas.

Assim, prevemos que os últimos momentos da vida de muitas pessoas sejam vividos de um modo que deve deixar muito a desejar, pois, não sabem com rigor, como é que que se morre, mas tem-se a ideia de como é que se vive com base na materialidade do ser, se é que podemos chamar isso de viver. Vive-se mal pelo que não se deve viver, infelizmente. Sigmund Freud já dizia: “Se quiseres poder suportar a vida, fica pronto para aceitar a morte.”

A discussão sobre a morte e os últimos momentos da nossa existência, lança um repto à nossa própria cultura e civilização, aos seus princípios e valores, e também, não o esqueçamos nunca, ao modo como esses valores se concretizam em nós, ou não. O modo como se entende a morte reflete a sua concepção de vida. Morremos do jeito que vivemos.
No contexto filosófico, a vida não tem sentido sem a morte. Como alguém bem disse: “O sentido que esta vida tem, deve-o a morte que não se ausentou do nosso viver”.

Esse período de interrogação humana sobre a morte pode construir uma fase de aprofundamento e enriquecimento espiritual, que pode ser levado por diante num diálogo com aqueles que lhe são próximos e que a ausência desta reflexão viria bloquear. Contudo, este argumento pode ser devolvido à procedência, já que, podendo decidir o momento da sua morte, o paciente terá melhores condições para estabelecer esse diálogo, sem a pressão duma morte que se avizinha avassaladoramente e ocorre independentemente da nossa vontade e desejo.

Podemos dizer que à luz dessa abordagem, a procrastinação da abordagem a temas relacionados a morte e ao morre, tem o poder de bloquear a experiência de uma reflexão sobre o sentido real e verdadeiro da vida. O Imperador Adriano, ao se deparar com essas indagações e frente ao sofrimento infausto, já velho, afirmou ao dizer serenamente: “Agora já posso entrar na morte com os olhos abertos”.

Ficamos mesmos é com doce fala do Senhor Jesus em João 5.24, onde lemos: “Em verdade, em verdade vos asseguro: quem ouve a minha Palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida.” Melhor do que entrar na morte com os olhos abertos é saltá-la, saindo da morte e indo para a vida.