O nome do pai na certidão de nascimento veio após 25 anos com um sentimento de missão cumprida. O jornalista Vinícius Rangel do Nascimento sonhava com o dia em que descobriria a própria origem e tiraria “paternidade não declarada” dos documentos.  

Com a identificação do genitor, Vinícius, que é natural de Guarapari, ganhou um novo sobrenome, “Rocha”, mais quatro irmãos, uma madrasta, avó, tios, e também um grande motivo para comemorar o dia dos pais.  

O pai, Alessandro Moreira Rocha, tem 56 anos, é técnico em contabilidade e mora na cidade de Formigas, em Minas Gerais. O primeiro encontro foi no ano passado, e a mudança na certidão de nascimento aconteceu esta semana.  

“Quando a gente é criançaadolescente, é muito estranho não saber ao menos quem é seu pai. Chegavaadatas comemorativas e eu não participava, não tinha quem substituísse aquele papel. Tive uma infância amadurecida e com poucas respostas. Meus coleguinhas me perguntavam cadê o meu pai e eu respondia engolindo o choro que ele estava viajando para Minas Gerais. Não esperava mais que pudesse encontrá-lo e ainda ter o sobrenome dele na minha certidão de nascimento e também nos meus documentos. Sou uma nova pessoa”, comemora o jornalista.  

Da cidade mineira, seguindo para Guarapari apenas a passeio, o técnico em contabilidade confessa que nunca imaginou que um filho pudesse procurar um pai por tanto tempo, e que esse pai seria ele.  

Registro no cartório de Guarapari.

Foi uma história muito diferente para mim. A busca do Vinícius pelo pai biológico foi muito grandiosa. Quando ele chegou até a mim, fiquei muito sensibilizado. Ele me perguntou se eu poderia dar o meu sobrenome e eu respondi, com certeza. Da parte dele, foi extraordinário não ter desistido dessa busca. Se fosse eu, teria desistido. Até brinquei com ele e propus que se eu não fosse o pai biológico, eu o registraria, só para ele cumprir a missão dele. Mas para minha surpresa, é meu filho de verdade”, conta Alessandro.  

E completa. “Parecia que eu e o Vinicius já nos conhecíamos há tempos. No segundo dia ele já estava me chamando de pai. No início, ganhar um filho de 25 anos foi um pouco diferente. Ele me chamou de pai e foi divertido”.  

Mãe ficou grávida e não conseguiu contar ao pai  

Os pais de Vinicius se conheceram em Guarapari, na década de 90. Na época, o mineiro Alessandro gostou tanto da cidade, que chegou a abrir um bar no bairro MuquiçabaA mãe de Vinícius, Regina Maria Rangel do Nascimento, 52, foi apresentada ao Alessandro, por um amigo em comum. Os dois ficaram e Regina acabou engravidando.  

Meses depois, Alessandro foi embora, e Regina não chegou a contar sobre a gravidez. Ela sabia apenas o nome dele, o nome da ex esposa dele, do pai dela, e a cidade onde ele viveu em Minas Gerais.  

“Tudo começou aos meus quatro anos de idade, quando comecei a questionar a minha mãe sobre quem era o meu pai e onde ele estava. Ela tentava me enrolar, mas dizia poucas coisas. Sempre falava que ele era mineiro e que estava em Minas Gerais, na Cidade de Santa Barbara. Só que eu não me contentava. Os anos se passavam e eu sempre questionava. Uma vez, ainda criança ela chegou a ligar para o pai da ex mulher do meu pai, para tentar saber dele. Mas não conseguiu muita coisa. Chegou a ser passar por outra pessoa até conseguir saber que meu pai não estava mais com a ex há alguns anos”, conta o jornalista Vinicius Rangel.  

E continua. “Minha mãe sempre dizia que iria atrás dele pra mim, mas como os meios naquela época eram difíceis, ela não conseguia muitas coisas. Na minha adolescência eu iniciei parte das buscas pela internet. Fui na casa de amigos antigos que meu pai fez em Guarapari, e que lembravam dele, mas não sabiam onde ele estava. Só que tinha ido embora”.  

Nova família que mora em Minas Gerais.

Busca em igrejas e até cemitérios 

Na internet, Vinícius conta que buscava de todas as maneiras nomes e possíveis sobrenomes do pai, mas com apenas o primeiro nome era difícil. Todos os anos as buscas eram refeitas com a esperança do pai ter feito alguma publicação sobre ele ou sobre Guarapari.  

O jornalista chegou a ficar desacreditado, mas encontrou nos estudos da faculdade, uma linha de investigação. Depois de formado em jornalismo, ele passou a pedir ajuda aos jornais de Belo Horizonte, onde confiou que a informação teria uma maior abrangência.  

Foi em março de 2018, que eu resolvi arriscar as últimas fichas que eu tinha. Liguei para todas as igrejas católicas que tinha na cidade de Santa Bárbara, e contei que eu era jornalista e estava fazendo uma reportagem sobre um filho que queria encontrar o pai depois de 25 anos. O pai, de nome Alessandro, que foi casado com tal pessoa, que morava na cidade, teve o filho em Guarapari. Eu insisti com os padres sobre essa história e consegui durante três semanas, que perguntassem os fiéis durante as missas de domingo sobre o Alessandro. Eu daqui consegui fazer padre parar a missa para perguntar sobre o meu pai. Infelizmente sem sucesso”, conta.  

O jornalista disse ainda que ampliou a pesquisa para os cemitérios e chegou a conversar com alguns coveiros que disseram que não existia muitos mortos com nome de Alessandro nos livros, e que não havia nenhum que se encaixasse no perfil que procurava 

Tentei também nas lojas da cidade e regiões cujo o nome dos proprietários era Alessandro. Mandei cerca de 45 e-mails para essas lojas. Algumas não atendiam telefone e a saída era o e-mail. Muitos voltaram e sem respostas”, completa.  

Pesquisas foram realizadas na receita federalno site do Tribunal Eleitoral de Minas Gerais, nas prefeituras de Santa Barbara, Belo Horizonte e Barão de Cocais. Li várias listas de pessoas que passaram em concursos públicos que tinham o nome de Alessandro e tentava cruzar com outros sites e perfis nas redes sociais. Mas nada. Nada se encaixava”, completa.  

Encontro veio após ajuda de policiais e jornalistas 

Mesmo não querendo envolver outras pessoas, o jornalista Vinícius Rangel, que buscava há mais de 20 anos o pai, resolver pedir ajuda a jornalistas e policiais.  

Podia ter pensado nisso antes, mas não queria envolver outras pessoas nessa busca. Era algo pessoal. Uma amiga Policial Civil de Cachoeiro de Itapemirim me ajudou pegando alguns dados e montando um perfil. Com a ajuda de outros policiais amigos dela que moravam em Belo Horizonte, ela tentou buscar nos sites internos da prefeitura. Apareceram alguns nomesmas nada concreto. E os telefones também não funcionavam. Ela comprou minha briga e me chamou para irmos até a cidade de Santa Barbara para tentar investigar a situação no local”, conta o jornalista.  

Enquanto aguardava mais informações da policial, Vinícius resolveu enviar um texto para todos os jornais da região de Belo Horizonte. Um dos jornais fez a publicação no perfil público deles 

“Cinco dias depois, uma menina comentou, dizendo que conheci o Alessandro e que ele era o pai dela. Foi aí que eu entrei em contato e descobri que ela era umados meus quatro irmãos. Na hora a gente conversou muito e ela fez contato com ele. Ele ficou de início muito assustado. Trocamos contato e no mesmo dia eu liguei para ele e nós conversamos. Eu expliquei que eu não queria nada além do nome dele na minha certidão de nascimento e o sobrenome dele. Na hora foi um choque. Eu parei numa fase da minha vida que eu não sabia o que fazer. Eu tinha certeza que eu tinha encontrado o meu pai. Falei para a minha tia e ela também não acreditou. A minha mãe ficou surpresa e ao mesmo tempo muito feliz. Meu coração disparou por dias”, lembra Vinícius.  

Alessandro não mora na cidade das buscas, e sim em Formiga, próximo a Divinópolis em MG, a 800 km de Guarapari.  

O primeiro encontro aconteceu em agosto do ano passado, e foi emocionante. “Uma surpresa para os dois. Não esperava encontrar meu pai de 56 anos, de boné, calça apertada, camisa polo e piercing na língua. Na hora foi uma surpresa (risos). De lá mesmo eu propus a ele de fazer o DNA logo e ele topou. Fizemos em poucos minutos. À espera pelo resultado durou um mês. Dias antes de sair, ele já tinha me dito que mesmo que se o resultado desse negativo, ele queria me assumir. Aquilo foi um marco pra mim. Quando o resultado saiu, não pensei duas vezes e mandei as mensagens com as fotos do documento atestando a paternidade. E agora com o registro feito no cartório e com o novo nome, eu posso atestar de verdade a minha paternidade. Posso provar com todas as letras que ele é o meu pai”, finaliza  o jornalista.  

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