Depois da consolidação da GWM em Aracruz, outra gigante automotiva chinesa pode colocar o Espírito Santo no centro de sua estratégia industrial em solo nacional. A Jetour, marca pertencente ao grupo Chery (atualmente a terceira maior montadora da China, atrás apenas de BYD e Geely), está avaliando propostas para iniciar a produção local de seus veículos. E o território capixaba figura fortemente entre as opções.

O anúncio foi detalhado por Sid Huang, vice-presidente da Jetour Brasil, durante sua vinda a Vitória para o lançamento da nova concessionária da marca na Reta da Penha, nesta quinta-feira (2). Segundo o executivo, a marca entende que, para sustentar as vendas no mercado brasileiro a longo prazo, o caminho obrigatório envolve produzir no país, adaptar os modelos ao gosto local e estreitar os laços com o consumidor.
“Nosso plano é decidir em breve. Ainda neste ano. E esperamos que no ano que vem comecemos a produções locais”, adiantou Sid Huang.
O interesse do grupo econômico no Espírito Santo não é inédito: em abril deste ano, a Caoa Chery — outra marca do grupo que opera no Brasil ao lado de Omoda & Jaecoo — já havia iniciado conversas preliminares para a instalação de uma fábrica no estado.
A força da engrenagem logística capixaba
A análise da Jetour para se instalar no Espírito Santo vai além do potencial de consumo. Atualmente, a montadora já utiliza os portos capixabas como a principal porta de entrada para a importação de sua frota. A combinação de infraestrutura portuária, conexões rodoviárias com o restante do país e a expertise em comércio exterior tornam o estado uma plataforma estratégica.
Para Huang, há também uma identificação cultural e geográfica: o estilo de vida, as estradas e o perfil de viagem do capixaba se alinham diretamente com o DNA da montadora, focada em utilitários.
Essa mesma lógica de eficiência logística motivou a GWM a escolher Aracruz no passado. À medida que o volume de vendas cresce, a localização industrial deixa de ser apenas uma escolha operacional e passa a ser uma barreira de sobrevivência comercial devido a tarifas, custos de transporte e acirramento da concorrência.
Metas ousadas e posicionamento diferenciado
A urgência por uma planta fabril responde aos planos ambiciosos da companhia: a Jetour elegeu o Brasil como um de seus mercados mais estratégicos fora da China e trabalha com a meta de alcançar a marca de 100 mil unidades vendidas até 2030. Para atingir esse patamar, a estrutura de importação deixa de ser autossuficiente, demandando uma rede robusta nacional que inclua fábrica, fornecedores locais e centro de distribuição de peças.
Diferente de concorrentes como BYD, GWM, GAC e Leapmotor, a Jetour não planeja disputar o mercado de massa. A estratégia da marca está concentrada em liderar um nicho específico:
Segmento: SUVs de design quadrado e pegada essencialmente off-road.
Motorização: Modelos puramente híbridos e propostas voltadas para o ambiente familiar.
Conceito: “Carro de experiências”, associando o produto a viagens, aventura, liberdade e alta personalização.
Para dar suporte a essa estratégia, novos lançamentos já estão mapeados para o mercado nacional, incluindo o T2 4×4 (atendendo a pedidos de maior performance fora do asfalto), o G700 (um modelo de luxo robusto com quase 900 cavalos) e o S08/i08 (um híbrido de 7 lugares voltado para famílias). Os veículos contarão com adaptações baseadas no feedback dos clientes locais, intermediadas por um centro de desenvolvimento e pesquisa no Brasil.
Estrutura de recarga elétrica em pauta
Questionado sobre as limitações de infraestrutura para veículos eletrificados no Brasil, Sid Huang minimizou o gargalo usando o histórico de seu país de origem. Segundo ele, a China enfrentava o mesmo cenário de recargas demoradas e difíceis há dez anos. Com a evolução tecnológica, o cenário mudou drasticamente, permitindo hoje recargas rápidas de 30% a 80% em um intervalo de 10 a 15 minutos.
A marca aposta que o Brasil passará pela mesma transição e pretende estimular o mercado local com facilidades como o fornecimento de wallbox gratuitos e parcerias estratégicas para ampliar os pontos de carregamento em residências, escritórios e shoppings.
Se os planos da Jetour avançarem em solo capixaba, o Espírito Santo consolida uma importante transição econômica: deixa de atuar estritamente como um corredor logístico de comércio exterior e se firma definitivamente na cadeia de produção da nova indústria automotiva nacional.










