O primeiro e propalado aos quatro ventos é o da contemporização seletiva. Nele, você se torna um adereço numa platéia composta por bonecos que aplaudem quando o sonoplasta aperta o Play. Ainda que seja você o único desses bonecos dotado de movimentos nos membros superiores, a onda dominante te faz apenas endossar o coro e sorrir no final do espetáculo. Não há mesmo vida em Marte.

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Nele, você se torna um adereço numa platéia composta por bonecos que aplaudem quando o sonoplasta aperta o Play.

Os dias são levados de forma amórfica, embalados ao sabor amargo das brisas sem direção. Nesse navio, não que você não seja o capitão, imediato ou capitão de bandeira, senão que nem no navio você está. Resta apenas assistir impávido, àquele ponto se perder no horizonte enquanto um acenar de mãos se traveste de consolo.

Aquela é a sua vida se perdendo na linha que separa céu de mar. O outro é o compromisso com a verdade e com as rédeas da sua própria existência. Esse caminho sempre será repleto de perigos e infortúnios e eles vão procriando em doses cavalares e progredindo em desdobramentos aritméticos, à medida que vão sendo vencidos.

Estar a serviço da verdade implica em consequências nada agradáveis, vez ou outra, ou quase sempre. Reagir da forma correta às intempéries e temporais, sendo detentor daquele timão citado acima, é sempre semeadura de solidão plena.

Seja o que for a verdade, para se ter uma definição correta esta terá́ sempre que se validar a si mesma, pois, para se definir com propriedade o que é a verdade será́ necessário, no mínimo, estar na sua posse.

“Política, religião e futebol não se discutem”.

Você deve ter crescido com essa afirmação tatuada no córtex cerebral e isso se tornou absolutamente fatídico sem que você jamais tenha se indagado em relação ao porquê. O embate ideológico não fez parte de nossa cultura nos últimos 30 anos, talvez mais ou talvez jamais tenha feito.

Talvez elementos antropológicos reforcem os aspectos culturais (ou a fata deles), que retratam ou servem de resposta a uma indagação com base nessa afirmação. Esse embate é fundamental  tanto para edificação do caráter, quanto para uma maior compreensão de mundo.

Só se torna viável falar sobre algo, ou entender, se essa compreensão vier, necessariamente, precedida de observância e discordância de idéias e por consequência conhecimento pleno e universal do assunto.

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Devemos mudar o conceito de discussão e retirar dela a pecha pejorativa que lhe foi concebida sem mérito algum. Discutir e debater são fundamentais para pavimentar o caminho de um conhecimento pleno, tanto do assunto, quanto de si mesmo.

Não se deve ter medo de se manifestar, pois os lemes estão soltos e alguém precisa tomar o controle…ou pelo menos ser comandado por alguém que vá definir que direção tomar. Ainda que a carta náutica não tenha sido escrita por você, alguém pode te oferecer uma atualização de trajeto ou atalho mais interessante.

Márcio Yguer é músico, produtor musical e filósofo
Márcio Yguer é músico, produtor musical e filósofo

Essa é a essência básica da função positiva do embate. Entrar em uma discussão querendo estar errado, sempre nos tornará perenes a adquirir conhecimento cada vez  maior, seja mudando nosso ponto de vista, seja reafirmando nossas certezas, seja não acontecendo absolutamente nada.

Sempre há algum ganho. Jamais se cale.

“O que me preocupa não é nem o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem caráter, dos sem ética… O que me preocupa é o silêncio dos bons.”

Martin Luther King

Márcio Yguer é músico, produtor musical e filósofo.

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