O Brasil alcançou um marco histórico em seu desenvolvimento social. Pela primeira vez, o país ingressou na categoria de desenvolvimento humano “muito alto”, atingindo a marca de 0,805 no Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) em 2024. Para contextualizar, em 2012 o índice era de 0,744 (a escala vai de 0 a 1, e valores acima de 0,800 são considerados muito altos).
Os dados são do relatório Radar IDHM, divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) Brasil. O avanço impressiona quando olhamos para trás: há 30 anos, quando o Pnud começou a medir o índice, o Brasil amargava um IDHM considerado baixo (inferior a 0,555).
O indicador monitora três pilares essenciais — saúde/longevidade, educação e geração de renda — cruzando os dados por gênero e cor/raça, cobrindo o período de 2012 a 2024.

Avanço. A grande força motriz por trás desse salto histórico foi a educação, cujo subíndice disparou de 0,679 (2012) para 0,798 (2024). De acordo com Betina Barbosa, coordenadora da Unidade de Desenvolvimento Humano do Pnud Brasil, o principal responsável por esse fenômeno é o impacto de longo prazo do programa Bolsa Família (criado em 2003).
“É o programa Bolsa Família que retira uma quantidade enorme de crianças do trabalho e dá a elas a condição da escola e a obrigatoriedade de estar na escola. Vejo diretamente o efeito de uma política pública brasileira”, destaca Betina. Os reflexos mais consolidados começaram a aparecer cerca de dez anos após a criação do programa, quando as primeiras gerações de beneficiários completaram os ciclos fundamentais e médios.
Inclusão da População Negra e Redução de Desigualdades. A melhora na educação foi sentida de forma mais intensa nas famílias de baixa renda e, fundamentalmente, entre a população negra do país: a partir de 2016, os indicadores de educação para a população negra mostraram uma curva de crescimento expressiva. A especialista reforça que o futuro do desenvolvimento do país depende obrigatoriamente do combate às desigualdades de gênero e raça. “Não existe alternativa para a melhoria do desenvolvimento brasileiro sem incluir a população negra e as mulheres na agenda pública”, aponta.
Saúde Estável e Renda em Ritmo Lento. Enquanto a educação acelerou, os outros dois pilares mostraram comportamentos distintos: A saúde é o setor que entrega os melhores resultados absolutos devido à consolidação do SUS pós-Constituição de 1988. Em 2012, já estava no patamar “muito alto” (0,829) e subiu de forma gradual para 0,860 em 2024. Já a renda segue como o calcanhar de Aquiles do avanço rápido: cresceu em ritmo lento, saindo de 0,732 (2012) para 0,760 (2024), permanecendo na faixa de “alto desenvolvimento” (mas sem atingir o “muito alto”).
O Impacto da Pandemia e o Alerta do Pnud. O caminho até a marca histórica teve um forte solavanco entre 2020 e 2022 devido à pandemia de Covid-19, período em que o IDHM recuou para 0,757 (em 2021). O Pnud faz uma crítica contundente à gestão da crise na época, apontando que a “negação” da gravidade do colapso atrasou a criação de políticas de mitigação. O reflexo disso ainda é sentido na expectativa de vida e, principalmente, na mortalidade infantil, o indicador que mais preocupa a ONU atualmente e que exige respostas governamentais imediatas.
Nota técnica: O Radar IDHM foi calculado com base na Pnad Contínua do IBGE, em parceria com a Fundação João Pinheiro.









