Com a modernidade reivindicamos a liberdade e a individualidade, de tal modo que, quanto mais moderna a sociedade a qual estamos inseridos mais uno e individualizado buscamos ser. O moderno veio para crucificar o tradicional (brega, atrasado, antigo, etc.), para deixar às costas as antigas formas de vida social.

Nascido e criado em cidade pequena, sempre tive o desejo de ter mais privacidade, coisa que a Maria Santinha*, minha vizinha, nunca deixou eu ter. Passado alguns anos, passei a quase residir em uma das maiores cidades do mundo, São Paulo. Costumo ficar durante a semana na capital paulista e voltar para minha cidadezinha nos fins de semana.

Em meio à multidão, comecei a ter consciência daquilo que havia lido nos livros de Sociologia: um sentimento de solidão em meio a uma multidão, a falta de “calor humano” e um sentimento blasé (indiferença frente aquilo que deveria trazer surpresa ou choque).

Deus-costuma-usar-a-solidão-para-nos-ensinar-sobre-a-convivência.-Às-vezes-usa-a-raiva-para-que-possamos-compreender-o-infinito-valor-da-paz.Paulo-Coelho1

Notei, por experiência empírica, que o desenvolvimento das cidades tem tornado – e não é de agora, é claro – as relações sociais cada vez mais desprovidas do que chamamos “calor humano”.

Observando a multidão ao meu redor, pude perceber que não há pior solidão do que aquela que se dá em meio a uma multidão de faces desconhecidas e olhares distantes. Se sentir só, por contraditório que possa parecer, é mais comum nessas grandes metrópoles. Quanto mais gente, mais só podemos nos sentir.

A individualidade que busca o homem moderno urbano o tem feito refém da sensação de solidão. Quanto maior a cidade, mais as pessoas ao nosso redor deixam de ser “pessoas” para serem “indivíduos” que se diluem nas massas populacionais. Deixam de ser o Pedro Carlos e a Paulinha Rita para ser “o carteiro” e a atendente da Loja Americanas. Deixa de ser a Dona Regina, esposa do Rodrigo do Limão, para ser a “vizinha do 302”. É comum, por exemplo, no metrô de São Paulo, as pessoas ficarem ao telefone em busca de uma fuga dos minutos de solidão em meio à multidão. Nesses casos, ouvir música, ou ligar para alguém que ainda (isso mesmo, ainda) lhe é familiar, ajuda a não perceber a solidão em meio a uma multidão de indivíduos.

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Muitos, talvez a maioria das pessoas, sonham em morar onde ninguém vai se intrometer em suas vidas, onde suas relações serão impessoais. Os que não migram para os centros urbanos buscam meios de tornar suas vidas mais privadas possíveis. À primeira vista é algo que só traz benefício, a final, parece ser a tão sonhada maneira de se livrar da “vizinha fofoqueira”. Essa busca pela individualidade tem distanciado as pessoas uma das outras, tornando suas relações superficiais e “frias”. Os amigos reduzem-se ao mínimo, muitas vezes à simples “colegas” de trabalho, de curso, etc.

Mas por que essa tendência de solidão e impessoalidade no mundo moderno, principalmente nas cidades grandes? Já no início do século passado sociólogos debruçavam-se sobre esse fenômeno, dentre eles Georg Simmel.

Simmel**, de forma brilhante, apontou que a individualidade crescente se aprofundou com o Sistema Capitalista, tornando as relações de troca em relações impessoais (diferente do mundo feudal de outrora), via dinheiro – coisa por coisa. A cidade grande moderna, já apontava Simmel, se voltou, quase que completamente, da produção para fregueses completamente desconhecidos, os quais nunca se encontrarão cara-a-cara com os verdadeiros produtores. Ele afirmou que,

“[…] com isso, o interesse das duas partes ganha uma objetividade impiedosa, seus egoísmos econômicos, que calculam com o entendimento, não têm a temer nenhuma dispersão devida  aos imponderáveis das relações pessoais” (SIMMEL, 1976, p. 04).

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 Nesse sentido, o “espírito moderno” foi tornando-se em um “espírito contábil”. Quase tudo passou a ser quantificado. Cai um avião e a reportagem se pauta em contar o número de mortos e feridos. A notícia de 84 vítimas fatais seguida da correção para 81 mortos é vista como mero erro contábil. Tudo passou a ter número e preço. Até virgindade está sendo leiloada!

Há um caráter blasé que se aprofunda a cada dia. As pessoas não ficam chocadas com tragédias noticiadas na TV, vistas muitas vezes como mera curiosidade, o que se repede nas ruas por onde passa. Não nota-se a criança pedinte na calçada. Quando vista, entendida como um obstáculo a ser desviado. As pessoas ao derredor são apenas uma multidão. Falta “calor humano” nas relações! Falta percepção do que está em volta. As pessoas estão anestesiadas!

Essa busca pela a individualidade (acredito), já foi muito longe, pelo menos para mim. Quero conviver com a vizinha fofoqueira, mais precisamente a Maria Santinha! Quero viver por muito tempo em minha cidadezinha ou outra que tenha calor humano. Nada mais prazeroso do que ouvir um bom dia acompanhado com o nosso nome! As fofocas? Essas vamos suportando…

*Os nomes próprios usados são fictícios. Afinal, não quero amanhã a minha vizinha em minha porta me gritando(rs).

** SIMMEL, Georg. Metropolis and Mental Life. New York: Free Press, 1976.

 

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