A Polícia Civil de São Paulo deflagrou a Operação WI-FI para apurar um suposto esquema de direcionamento de licitação, superfaturamento e desvio de dinheiro público na Prefeitura de São Paulo. O alvo central é o Instituto Conhecer Brasil (ICB), uma ONG que venceu um contrato de R$ 108 milhões (que, após aditivos, chegou a R$ 157,1 milhões) para instalar pontos de internet em comunidades periféricas.
A proprietária do ICB, Karina Ferreira da Gama, também é sócia da produtora Go UP Entertainment, empresa responsável por “Dark Horse”, um filme biográfico sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro. A polícia suspeita que parte das verbas públicas destinadas à internet de comunidades carentes possa ter sido desviada para financiar a produção cinematográfica.
Indícios de Fraude e Superfaturamento. O inquérito, conduzido pela 2ª Delegacia de Crimes Contra a Administração Pública (DICCA/DPPC), aponta graves irregularidades no programa WiFi Livre SP:
- Sem concorrência e sem experiência: O chamamento público teve apenas a participação do ICB, uma entidade tradicionalmente voltada a feiras literárias e religiosas, sem histórico técnico no setor de telecomunicações.
- Discrepância de preços: Contratos anteriores da prefeitura com a estatal Prodam cobravam R$ 230 para instalação e R$ 306 mensais por ponto. O ICB fixou o valor em R$ 1.800 mensais por ponto.
- Pagamento sem serviço: O Tribunal de Contas do Município (TCM) apontou 20 falhas no edital e recomendou a suspensão. Dos 5 mil pontos prometidos, apenas 3,2 mil teriam sido executados. Há suspeitas de que parte deles sequer exista, embora R$ 26 milhões tenham sido pagos antecipadamente sem comprovação do serviço.
“Há consistentes suspeitas de confusão patrimonial e de que os recursos públicos do programa ‘WiFi Livre SP’ tenham sido desviados para custear as atividades de produção do referido filme”, declarou o delegado Antônio Carlos Munuera Silveira.
Filme “Dark Horse”. A investigação tenta rastrear os fluxos financeiros com o apoio do Coaf. De acordo com o inquérito, o filme sobre Bolsonaro teve mais de 90% do orçamento bancado pelo banqueiro Daniel Vorcaro (preso no fim de 2025 por fraudes). Mensagens obtidas pela Polícia Federal indicam que o senador Flávio Bolsonaro chegou a negociar com o banqueiro um aporte de US$ 24 milhões para o longa.
Além disso, o roteiro do filme é assinado pelo deputado federal Mário Frias (PL-SP), que chegou a destinar R$ 2 milhões em emendas parlamentares para a ONG de Karina.
O Outro Lado. Ao todo, foram cumpridos oito mandados de busca e apreensão expedidos pela 1ª Vara Regional de Garantias, atingindo endereços da empresária, da ONG, da produtora e a sede da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT). Em nota oficial, a Prefeitura de São Paulo refutou as acusações de desvio. A gestão municipal informou que está colaborando com as autoridades e que os documentos solicitados já eram públicos. A administração defendeu a legalidade do contrato assinado em 2024, alegando que o processo ocorreu antes da produção do filme, e afirmou também que o programa opera normalmente e que, em auditorias em tempo real, a imensa maioria dos 3,2 mil pontos instalados funciona perfeitamente, com custos atuais inferiores aos orçados em anos anteriores.









