Antes de naufragar nos meus parágrafos inconsistentes, frutos dos meus vícios quixotescos, mas nem por isso tão irreais assim, responda-me:

Quais planos prometidos à luz de fogos e champanhe você realizou em 2020?  

Certamente, em quase todas as respostas há de se encontrar o intruso Covid-19 como algoz, que em sua jornada cataclísmica tirou dos pulmões da vida e dos sonhos o “ar” de seus significados estereotipados – uma dessas falsas ideias é de que precisamos de um plano para degustarmos o filé da vida – a tal felicidade!

Marcia Moryan e Marcelo Moryan – (Foto com Celular)

Quem quiser se aventurar a discordar do parágrafo anterior terá que negar a matemática, a ciência e libertar a “esperança” já sem esperança da caixa de pandora das religiões – tarefa impossível até para o pobre “deus” dos cercadinhos – quiçá destronar a própria vida resoluta e encarcerada no último bastião que lhe resta – a dúvida – porque não existe verdade mais verdadeira que esta: O tempo não volta atrás e tampouco temos a capacidade de prever seus vendavais existenciais – outra verdade é o contrário desta sentença em letras garrafais: A VIDA É FEITA DE COISAS NÃO SONHADAS!

Sabe aquele café que você não degustou pausadamente, aquele abraço morno que só foi cúmplice de um cumprimento protocolar, aquele passeio que você não ousou sair fora da trilha, o beijo que você não quis atender ao chamado ou para ficar no exemplo mais simples de todos – quando você acordou para mais um dia de vida e nem sequer agradeceu? Pois é, a vida é feita dessas coisas que não planejamos, e toda a mirabolância só destrói suas conquistas reais – Viver cada momento como se fosse o último!

Transformar em prática este mantra. “Viver cada momento como se fosse último”, requer aprendizado sem pausas, decerto nem sempre conseguimos, mas o mais importante é não ser túmulo para cada guinada que a vida dá – Protagonizar os próprios sentimentos é uma tarefa que não tem espaço para sofismas – é missão heroica e solitária. Alguém ou algo vai sempre querer que sigamos um rumo diferente daquilo que o nosso coração precisa para ser feliz.

Exemplos desta luta e redenção interior não nos faltam: Dia desses vi uma amiga construir sua nova casa de uma maneira completamente fora do que reza a cartilha cartesiana – Ela começou sua edificação pelo jardim… isso mesmo, pelo jardim, as flores do jardim a acolhem mais do que as paredes que algum dia, lá muito na frente, enfim se erguerão. Confesso que achei o máximo… desconheço alguém que tenha começado uma casa pelo jardim – ir na direção contrária pode ser um ótimo exercício para viver o “Aqui e Agora”.

Desde a infância sou um leitor voraz e a década de 80 foi para mim o auge da minha efervescência cultural e filosófica. Conviver com leituras incomuns do tipo “malucos” como Rajneesh (Osho), Bhaktivedanta Swami Prabhupada (lembrança dos meus 03 anos Hare Krishna), Mahavira (Mestre Janista), e tantos outros, me deram o contorno de uma vida que precisa ser vivida em sua totalidade – e ser total é estar intensamente presente em cada momento.

Foi lá bem no início, que escutando “Beautiful Boy” uma das trilhas de “Double Fantasy”, último disco de John Lennon e Yoko Ono que me deparei com uma adaptação reveladora de um pensamento do escritor norte-americano Allen Sauders – Lennon parafraseou: “A VIDA É O QUE ACONTECE ENQUANTO VOCÊ ESTÁ FAZENDO OUTROS PLANOS”. Amigo leitor, eis aqui o mandamento essencial do viver intensamente: Esqueça seus planos e viva os PLANOS DA VIDA! A vida é a própria respiração de Deus!

John Lennon e Yoko Ono. Foto: Annie Leibovitz

Ao visitar Matilde, distrito de Alfredo Chaves, vi um Jambo Rosa forrar sua sombra de puros sentimentos… não pensei duas vezes e homenageei o autor de “IMAGINE”. Lennon, assim como eu, era intenso em tudo, principalmente no amor por todas as coisas.

Nesta semana, 08 de dezembro, completou-se 40 anos da imagem mais inesquecível de Yoko Ono e do líder dos Beatles, tirada poucas horas antes de seu assassinato. A foto nunca vista por Lennon foi tirada por Annie Leibovitz, a fotografa mais bem paga do mundo… e toda vez que a vejo é como se uma agulha no vinil riscado repetisse indefinidamente:

“A VIDA É O QUE ACONTECE ENQUANTO VOCÊ ESTÁ FAZENDO OUTROS PLANOS”. 

Devo a este sulco talhado no vinil todas as minhas reinvenções e felicidade, porque a minha vida é feita de coisas não sonhadas. Desejo que em 2021 você não vire o disco, porque é isso que sempre nos ensinaram a fazer – PROMESSAS… PROMESSAS – apenas arranhe-o e escute em loop eterno:

 “Life is what happens to you

While you’re busy making other plans”.