Quem mora de aluguel sonha em ter a casa própria, mas para a dona de casa Adriana Rodrigues, de 31 anos, a realização desse sonho trouxe um grande problema. Ela é mãe do Leonardo Rodrigues, de 12 anos, que é paraplégico e vive preso dentro de casa porque da falta de pavimentação na rua do Barrão, mais conhecida como rua Pernambuco, no bairro São Gabriel.

Ela é mãe do Leonardo Rodrigues, de 12 anos, que é paraplégico e vive preso dentro de casa porque da falta de pavimentação na rua.

Adriana relatou que o filho nasceu com Mielomeningocele, que é a malformação na medula que o impede de andar. Antes de morar em São Gabriel a família vivia em uma casa alugada na Rua da Marinha e lá o adolescente levava uma vida normal, apesar da deficiência. “Nós morávamos na Rua da Marinha e meu filho tinha acesso a várias coisas. Aí meu marido juntou um trocado e conseguiu comprar aqui em São Gabriel. Nós pensamos em sair do aluguel porque morávamos de aluguel. Aí viemos morar aqui há mais ou menos 2 anos e meu filho não tem acesso a mais nada, não tem acesso a padaria nem nada do que ele gostava tem acesso mais”, contou a mãe chorando.

Adriana se emociona ao falar da falta de acessibilidade enfrentada pelo filho. Foto: Roberta Bourguignon.

Ela se sente culpada por ter realizado o sonho da casa própria, já que o local onde moram dificultou o acesso do filho a escola. “A maior dificuldade nossa é o estudo, ele gosta muito do estudo e é uma coisa que praticamente nós tiramos dele porque com a nossa vontade de sair do aluguel viemos para cá e aí dificultou ele ir estudar, que é uma coisa que ele gosta. Ele estudava no Zuleima e no ano passado ele quase perdeu por causa dos pais dele por não ter muito acesso. Não tem uma van que vem nessa rua, não tem nada. Nós não temos acesso”.

Adriana explicou que o menino frequentou a escola, mas faltou muito por conta da dificuldade que é tirá-lo de casa e subir duas ruas cheias de buracos e sem asfalto com ele em uma cadeira de rodas e que em dias de chuva isso passa a ser impossível. Com isso Leonardo acabou de recuperação e ela chegou a pensar a voltar para o aluguel.

“Ele está no sétimo ano. Ficou de recuperação devido à dificuldade de locomoção dele pela situação da rua no bairro. Mas ele fez recuperação e passou. Ele ficou de recuperação porque perdeu as matérias, ele é muito inteligente. Fiquei muito desesperada. Falei com meu esposo que por mim a gente voltava para o aluguel, mas ele falou para a gente pagar nossa casinha aqui e não vamos voltar porque pagar aluguel não conseguiria mais”.

Leonardo também falou de como foi difícil ficar de recuperação e revelou a profissão que pretende seguir. “Amo estudar e sonho em ser advogado. Foi bem difícil e fiquei muito nervoso quando fiquei sabendo que estava de recuperação. Tive que estudar muito, mas eu faltei alguns dias e duas provas porque ficava chovendo e a rua ficava toda molhada e aí não podia ir para escola”.

“Queria que asfaltassem a rua”

O menino deixou escapar que se sente sozinho porque apesar de morar há dois anos no bairro, não consegue fazer amigos para brincar. “É muito ruim não poder sair porque lá eu brincava com meus colegas na rua e aqui eu não posso mais. Não tenho nem amigos aqui porque não tenho como sair de dentro de casa. Queria que asfaltassem a rua ou fizessem alguma coisa para tirar os buracos para mim poder descer e brincar porque isso eu gosto de fazer”.

“Ele está no sétimo ano. Ficou de recuperação devido à dificuldade de locomoção dele pela situação da rua no bairro.”, diz a mãe.

Adriana também revelou um outro desejo de filho que ajudaria muito na sua locomoção. “A gente gasta de dez a quinze minutos empurrando ele para subir toda a rua. Isso porque ele ajuda usando os braços para movimentar a cadeira. Mas a cadeira já está pequena e ele sonha com uma motorizada”.

Ela disse ainda que com toda a dificuldade de sair de casa o menino já está com problemas emocionais. “Uma criança de 12 anos gosta de pular e fazer as coisas, meu menino é a mesma coisa. Apenas ele é deficiente das pernas. A mente dele funciona bem. Antes ele perguntava mãe você quer que eu compre o que? Agora ele não tem como mais e isso prejudicou emocionalmente ele”.

Adriana carrega a culpa de ver o filho preso em casa e também um grande desejo. “Que a rua seja asfaltada porque com asfalto eu pego meu filho e saio, mas sem asfalto e com aqueles buracos não tem como porque ele cai. Nós já caímos mais de dez vezes e ainda bem que ele leva na diversão e começa a rir. Nós tentamos levar na esportiva, mas depois dentro do quarto eu e meu esposo conversamos vemos que realmente a gente fez para ele”, desabafou a mãe.

IPTU. Um dos primeiros moradores da rua é o pedreiro Carlos de Souza Santos, de 60 anos. Ele não conhecia o Leonardo porque o menino nunca sai de casa, mas reforçou o pedido da família e relatou que a rua nunca recebeu melhorias. Segundo ele, os próprios moradores colocam barro para fechar os buracos e a prefeitura não realiza nem a limpeza do local, que também não tem saneamento básico.  “ Já tem mais de 20 anos que moro aqui. Comprei os terrenos e pago água e luz. O Carnê do IPTU nunca chegou para nós, mas como a prefeitura nunca fez nada pela gente, realmente não temos motivos para pagar.  Vamos pagar o IPTU a partir do momento que recebermos melhorias. Se não puder asfaltar, que façam um calçamento. Mas nós precisamos de melhorias”, afirma.

Os moradores afirmam que colocam barro para fechar os buracos e a prefeitura não realiza nem a limpeza do local, que também não tem saneamento básico.

Resposta. A prefeitura informou que a Secretaria de Obras tem ciência que diversas ruas do município não possuem pavimentação asfáltica e que está recebendo estas solicitações e fazendo levantamento de custos para a realização das obras de acordo com a disponibilidade orçamentária. Disse ainda que melhorias paliativas são estudadas.

Já sobre a limpeza da rua, A Companhia de Melhoramentos e Desenvolvimento Urbano de de Guarapari (CODEG), esclareceu que a localidade possui coleta de lixo regular sendo toda segunda, quarta e sexta no período da manhã. Mesmo que o caminhão da coleta não entre no trecho, a retirada é feita manualmente pelos funcionários da CODEG. Equipes de capina também realizam cronograma de capinha no bairro.

Em relação ao IPTU a prefeitura explicou que é um tributo municipal cujo valor varia conforme o próprio valor do imóvel (de acordo com avaliação feita pela própria prefeitura) e que toda construção, independentemente de ser residencial ou comercial, deve pagar o IPTU, pois é através deste imposto que a Prefeitura obtêm recursos próprios para investir em benefícios para a comunidade. Com a inadimplência do imposto a Prefeitura perde recursos de investimentos para a melhoria da cidade.

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