Alvo de diversas pesquisas na comunidade científica, o uso da cloroquina ou hidroxicloroquina tem dado o que falar. Enquanto muitos médicos defendem, outros refutam o o tratamento com o medicamento que segue em fase de testes. Recentemente descontinuadas pela OMS, as pesquisas com cloroquina foram retomadas após um estudo em uma renomada revista científica ter sido retirado do ar.

O Fantástico, inclusive levantou um questionamento sobre a possibilidade de contaminação da ciência em função das urgências da pandemia. Em entrevista ao jornal, Natalia Pasternak, microbiologista do instituto de Ciências Biomédicas da USP, levanta a questão: “eu acho que é momento da gente reavaliar se boa ciência consegue ser feita com tanta pressa”. Complementando a questão levantada por Natalia, José Alexandre Barbuto, imunologista do instituto de ciências biomédicas da USP fala também do “ir e vir da ciência”, enfatizando: “o erro faz parte da ciência, a ciência não é uma coleção de verdades, é uma coleção de hipóteses”.

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Como tudo começou

Registrada no Brasil para o tratamento de artrite, lúpus e malária, a cloroquina sumiu das prateleiras das farmácias desde meados de março, após publicação de estudos em revistas acadêmicas dos Estados Unidos, China e França sobre resultados promissores do medicamento no tratamento da COVID-19.  Na mesma semana, a Anvisa enquadrou a cloroquina e a hidroxicloroquina como medicamentos de controle especial, impedindo sua exportação.

Com a recomendação publicada pelo governo no final de maio, o sistema público de saúde passou a ter autonomia para prescrever cloroquina ou hidroxicloroquina não somente a pacientes graves, mas também para pacientes com quadro leve ou moderado de coronavírus. Para isso, médico e paciente devem concordar com o uso, uma vez que o medicamento oferece riscos, principalmente a quem tem problemas cardíacos.

Estudos realizados

Os estudos com a hidroxicloroquina levaram esperança a milhares de pessoas do mundo inteiro, mas os resultados ainda são inconclusivos. Na China o medicamento foi testado com sucesso em laboratório, em cultura de células. Segundo a pesquisa, o medicamento inibiu a entrada do vírus nas células e bloqueou seu transporte entre as organelas celulares. Esse quadro, entretanto, não se traduz necessariamente quando aplicado em humanos.

A França também lançou mão de estudos para tentar comprovar a eficácia da substância. Cientistas da Universidade de Medicina de Marselha anunciaram resultados positivos ao tratar 36 pacientes com hidroxicloroquina e azitromicina, uma vez que observaram a diminuição ou desaparição da carga viral nesses pacientes. Surgiram críticas à pesquisa, primeiramente, pelo quantidade reduzida de pacientes para amostragem, em segundo lugar pela forma como os resultados foram medidos e mais, há um estranhamento no fato do estudo ter sido aceito para a publicação em apenas 24 horas.

Outros estudos foram publicados mundo afora, no Brasil, um estudo preliminar foi interrompido após a morte de 11 pessoas. De acordo com os cientistas, altas doses do medicamento poderiam levar a sérios quadros de arritmia. Ao divulgar seus estudos, os pesquisadores alertaram que altas doses do medicamento não deveriam ser usadas em pacientes em estágio grave de COVID-19.

Em 3 de junho, um estudo publicado no periódico The New England Journal of Medicine, apontou que a hidroxicloroquina não previne a COVID-19. A pesquisa foi feita com 821 pessoas, sendo que parte delas tomou placebo e parte tomou a substância que não mostrou diferença significativa na eficácia, segundo os autores.

Duas outras grandes pesquisas, uma publicada na revista JAMA, com dados de 1438 pacientes, e outra no The New England Journal of Medicine, com amostragem de 1376 pacientes, apontaram não haver evidências de que o uso da hidroxicloroquina poderia reduzir a taxa de mortalidade ou o número de intubações dos pacientes com a forma grave da doença.

Pouco antes da confusão causada pelo artigo publicado na revista Lancet, pesquisadores do Canadá e dos Estados Unidos já haviam analisado 12 estudos publicados sobre a eficácia e segurança dos medicamentos contra a COVID-19 e concluíram que a metodologia das pesquisas é pobre e que os dados são muito imprecisos.

Revista Lancet

Nos últimos três meses, a OMS (Organização Mundial de Saúde) vinha coordenando o estudo internacional Solidarity em 18 países, a fim de avaliar a segurança e a eficácia dos medicamentos para combater o coronavírus. No fim de maio, após publicação de pesquisa da comunidade científica em uma renomada revista da área (Lancet), a organização decidiu suspender os estudos sobre as drogas.

A reviravolta se deu no dia 4 de junho, 13 dias após publicação, o artigo foi retirado do ar. Nessa data, a Lancet anunciou que o documento foi retratado, medida adotada quando acontece algum tipo de erro, má conduta ou fraude.

Após duras críticas de outros pesquisadores com relação ao levantamento de dados incompatíveis com a realidade, três dos autores solicitaram uma auditoria do trabalho da empresa Surgisphere Corporation e de seu fundador, Sapan Desai, um dos coautores do trabalho que cedeu os dados para a produção do artigo.

O trabalho de auditoria não pôde ser concluído, porque a empresa se recusou a fornecer dados. Dessa forma, os três pesquisadores decidiram retirar o artigo do ar, por não poderem garantir a veracidade dos fatos. Após o ocorrido, o conselho do programa Solidariedade, coordenado pela OMS, decidiu retomar os estudos com a droga.

Guarapari

Dr. Rogério Zanon foi curado do coronavírus

Recentemente, Dr. Rogério Zanon, conhecido médico da cidade, gravou um vídeo e postou em suas redes sociais afirmando ter feito o uso da hidroxicloroquina no hospital, durante o tratamento para combate à COVID-19. Na gravação, o médico deixa claro que não foi comprovada a eficácia do medicamento, que seu uso requer controle por meio de exames cardiológicos, mas que, juntamente com os outros remédios que ele tomou, houve regressão do quadro da doença e ele está curado.

Recomendação

As pesquisas continuam, mas a comunidade científica alerta as pessoas de que a hidroxicloroquina é uma medicação que deve ser usada sob supervisão médica, uma vez que possui diversos efeitos colaterais: anemia, alterações oculares, agranulocitose (queda severa dos glóbulos brancos), queda na contagem de plaquetas, dentre outros.