Há dois dias, a cidade de Guarapari se uniu em luto. A balconista da padaria comenta com o cliente, a agente comunitária fala da dor que os pais estão sentindo com a perda de uma criança de forma tão rápida, e nas redes sociais, os moradores, familiares, pessoas de todas as religiões, desejam forças ao pastor Rafael Vaillant, e a pastora Brenda, da Igreja Batista do Coroado.
No auge dos seus 30 poucos anos, pais de uma menina com 7 ou 8 anos, e agora filha única outra vez. Vicente, prestes a completar seus 3 anos de idade, por segundos de distância, já não dorme mais na sua cama.
Os outros pais da cidade, desesperados com a notícia, abraçaram ainda mais seus filhos, declaram amor eterno com mais intensidade, e até dormiram na mesma cama para sentir o amor puro que só as crianças podem oferecer.
Vicente, no auge de suas brincadeiras no quintal de casa, acabou encontrando o portão da piscina aberto, e caiu na água. A mãe, ao lado da filha mais velha, quando se deparou com a cena, pegou o filho rapidamente, colocou nos braços, e naquele instante acreditou que a corrida para o pronto atendimento poderia salvar a vida do seu filho.

Na saída pelo portão eletrônico da casa, o simples portão que todos os dias era aberto com facilidade, não abriu. Os gritos por socorro foram ouvidos pelos vizinhos, que pularam o muro e abriram o portão na base da força.
Vicente seguiu para o hospital no carro dos pais, e ao entregá-lo aos enfermeiros e médicos, logo veio a notícia que o pequeno não vivia mais nessa terra.
Uma mulher que estava na Unidade de Pronto Atendimento logo contou a outras pessoas que o filho do pastor Rafael teria morrido afogado. A notícia se espalhou em todos os grupos da cidade. A comoção tomou conta de quem o conhecia e de quem nunca ouviu falar.
Os familiares começaram a receber ligações para confirmar aquela informação que eles muito gostariam de dizer que era falsa.
As pessoas logo começaram a pedir um tempo no trabalho para ir até a casa dos pastores. 30 minutos depois do acontecimento, dezenas de carros já estavam estacionados no entorno da casa 18, no bairro Praia do Riacho.

Enquanto alguns diziam ‘Ninguém explica Deus’, outros consertavam o portão, e muitos se reuniram na sala da casa para tentar abraçar os pais que ali estavam. E no meio de tanta dor, tantas lágrimas e sofrimento, a bíblia e a palavra de Deus não deixou de ser o alimento para aquela família. Porque para quem é cristão, a vida não acaba aqui, e o Vicente, puro de coração, estaria chegando na eternidade.
O pastor Raphael Abdalla repete no culto ao final do velório, a leitura que o pai Rafael fazia na sala de casa. Filipenses 1, versículo 20 – será Cristo engrandecido no meu corpo, quer pela vida, quer pela morte.
“Essa cidade está de luto. O nosso coração está em luto. Há dias passados eu tomava um café com o pastor Rafael, e ele falava acerca do Vicente. Eu nunca vi nos olhos de um homem, tanto brilho, ao falar do Vicente. Eu que ainda não tenho filhos e espero ter, desejo que o Espírito Santo me conceda a graça de ter os brilhos desse pai nos meus olhos, quando eu olhar para meus filhos no futuro. Brilho nos olhos de um homem de Deus. Brilho nos olhos de uma mulher de Deus”, comentou Abdallla.
E em seu discurso, continuava dizendo que tinha duas palavras a dizer sobre o acontecimento: não sei, ou não sabemos. E na morte, seria possível concentrar no que é possível saber, já que a morte não tira o brilho dos olhos desses pais.
“Nós não perdemos o Vicente, porque só perdemos aquilo que não sabemos onde está. A gente sabe onde ele está, com quem ele está, e como ele está. O que sabemos é que o Espírito Santo vai consolar a igreja, a família e cada coração. E nessa igreja eu ouvi do pai durante a noite, ‘Deus deu, Deus tomou’, e bendito seja o nome do Senhor. Porque as duas palavras que no fim nos importa, é olhar para a família e dizer: amamos vocês”.
Nas palavras de agradecimento daquela mãe que estava com o coração despedaçado, mas com a alma inteira, a fé transbordava. Com um balão na mão escrito Vicente e uma figura de carrinho, a pastora Brenda rodeava o caixão cantando com toda sua força a canção de Aline Barros, Consagração/ Louvor ao Rei. Nenhuma mãe ou pai conteve as lágrimas.

E ali ela ainda dizia o quanto o filho gostava de brincar de carrinho, e o propósito de Vicente parecia se cumprir.
“O Vicente veio com um propósito, e ele já está sendo cumprido. Agora vocês vão voltar para suas casas, para as suas vidas, porque a vida segue. Mas entenda que o propósito não é somente nos dar amor, mas dar amor àqueles que estão lá fora e não conhecem a Jesus. Quantas pessoas vieram aqui hoje, ontem, na madrugada, na nossa casa. Tanta gente que eu não via há anos. Se cada um de vocês falar do amor de Jesus, e conquistar uma vida para Jesus, o céu estará em festa. E esse foi o propósito do meu filho aqui hoje. Não deixe essa chama se apagar no amor de vocês”, clamou a pastora.
Que ainda contou que até as amigas de escola que tentava encontrar e não conseguia estavam ali. “Não era assim que a gente queria se encontrar, mas elas estão aqui e vieram demonstrar o amor delas por mim, e é isso que importa. É demonstrar o nosso amor pelo próximo, e se apegar em Jesus. E para encontrar com Vicente um dia, você terá que se entregar para Jesus, verdadeiramente, não só no calor da emoção”, completou ela.
Pastor Rafael, mesmo com a voz trêmula, também agradeceu. Primeiramente a Deus, pela vida do Vicente e também por cada abraço.
“Eu recebi mensagem de tanta gente importante, que nunca imaginei receber, mas eu também recebi o cumprimento de gente tão simples, que viu a igreja aberta e entrou para nos consolar. Ainda lá em Filipenses, aquele versículo famoso, que tem até em para-choque de caminhão, ‘Posso todas as coisas Naquele que me fortalece’, é o que nos consola. Hoje o Senhor nos consola. Apesar das angústias, dores e tristezas, que o Senhor venha fortalecer a sua vida também”.
O caixão se fecha e é levado para o carro da funerária com as várias coroas de flores que o pequeno recebeu. Ainda havia um protocolo a seguir – o cortejo, e o tão dolorido enterro. As milhares de pessoas saem caminhando para seus carros, enquanto pastores e membros da igreja tentam organizar o trânsito e amparar os pastores até o carro. Viaturas da Polícia Militar estavam à frente do cortejo.
No cemitério o balão com o nome do Vicente é lançado ao céu, uma salva de palmas ao menino, e o túmulo é fechado.
Aqui acaba uma vida na terra, mas o amor, esse nunca acabará. A vida é feita de momentos, e somos instantes, e quando Jesus for sua fortaleza, a resposta para tudo será o amor.
Então Jesus disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais”. João 11, 25-26.











