Fazemos coro com aqueles que estão na esperança viva de que o carnaval passe logo, para finalmente o ano ter início, pois, como alguns afirmam: “O Brasil só começa em março. Antes disso, tudo é festa e o ano não tem um começo sério”. É confraternização em cima de confraternização, início do verão, início das férias, fechamento do verão, término das férias, prévia de carnaval, grito de carnaval, despedida de carnaval, relembrando o carnaval etc.

O brasileiro cada vez mais passa a impressão a todo o mundo de que não há nenhuma crise instalada no Brasil e de que estamos indo muito bem. Só que isso não é verdade. A impressão de bem estar leva o homem a perdição. Somos surpreendidos com a capacidade que este fenômeno cultural de origem euro-africana tem de fazer o brasileiro sorrir e dançar num frenesi arrebatador de forma irrefletida.

São trios elétricos às centenas lotados de foliões e blocos carnavalescos com seus nomes esdrúxulos arrebanhando uma multidão sem fim, gerida pela frivolidade desse tempo. Custa crer que o mesmo brasileiro que reclama do preço do pão, que custa em média R$ 0,50, não reclama quando paga R$ 8,00 numa lata de cerveja quando vai a praia etc., e nem vemos a mesma indignação ao vê-lo pagar R$ 350,00 (ou mais) num abadá.

A amnésia social é uma enfermidade que muita gente não sabe que possui. Como efeito da pior recessão dos últimos tempos, já temos um incremento de 1 milhão e 200 mil pessoas desempregadas no país, e a estimativa é de que o Brasil terá 13,6 milhões de desempregados até o fim deste ano.

Mas as cicatrizes da crise econômica vão se arrastar ainda mais, elevando para 13,8 milhões o número de pessoas sem trabalho no país em 2018. Globalmente, isso significa o número de 203,8 milhões de desempregados. Assim, que razões temos para pular e dançar ao amargar essa tragédia social?

Diante da grave e profunda crise econômica que estamos atravessando, não deveria haver razão alguma para festejos. Tinhamos mesmo é que lamentar com profundo pesar nossa , atual e incontestável realidade. O momento é de contenção e equilíbrio nas contas, não de gastos desnecessários e nem de investimento em coisas banais e transitórias.

A nação brasileira passa por uma grande vergonha. Se há algo que de fato precisamos fazer, – e há – esse algo “é pular o carnaval e outras festividades desnecessárias e fúteis”, saindo fora de um momento que só tenta nos inebriar, de maneira a não lembrarmos de nossa triste e penosa situação.

Por outro lado, a lógica do “benefício financeiro que o comércio lucra com o período do carnaval”, mina moralmente as instituições, principalmente a família e as disciplinas escolares da área de humanas, independentemente da capacidade de produzir lucros ou benefícios monetários práticos, o que predomina mesmo é um espírito de total libertinagem, ofertando um exaltado e exarcebado destaque a presença do belo no outro, do culto ao corpo e da lascívia mesclada à sensualidade.

Tudo isso em detrimento de valores comportamentais morais e éticos oceanica, estratosférica e absurdamente superiores. Os temas interessantes – quando são são abordados nos carnavais do Brasil – o são de forma banal e simplista, pois, não dá ibope e nem corresponde a expectativa ortodoxa desse tempo.

Todo ano acontece a mesma coisa. São aqueles carros alegóricos que são o retrato do mau gosto. Pode ter certeza que sempre haverá uma cabeça de tigre, uma serpente, um saci pererê, uma entidade mitológica, invariavelmente, um carro que pega fogo, outro que quebra no meio da apresentação, um famoso(a) nu etc.

Pegue um desfile de 1983, um de 1995, outro de 2002 e compare com um de 2017; está tudo lá, repetido à exaustão e do mesmo jeito. Esse cenário só revela pessoas desconectadas do contexto em que estão inseridos. Em plena crise e festejando o quê?

Mentes inebriadas por muito tempo, quase sempre acarretam em desaforos, brigas, intolerância, acidentes de trânsito e assassinatos. Basta ver os números pós-Carnaval, divulgados pela imprensa.

Não deve-se ter nenhum receio em afirmar com todas as letras e com postura e personalidade que deveríamos “pular o carnaval”, no sentido de não curtir esse momento pelas vias tradicionais. Passe essa data ao lado de sua família, sempre desfrutando da doçura do outro. Visite um amigo, faça uma viajem ao lado de quem ama. Nem só de carnaval vive fevereiro.

Antes que surja o primeiro e mais manjado argumento contra a inutilidade do Carnaval, queremos dizer que opinião é como CPF. Cada um tem a sua. Essa é a nossa, e assim temos paz em pensar.

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