Um ano e um mês, foi o tempo em que Marta ficou privada de saber como estava o mundo naquele período. Foi de Setembro de 2012 a outubro de 2013. A mulher hoje, com 47 anos, relata ao jornalismo do Portal 27, momentos que foram marcantes em sua vida. Medo, dor, desespero, saudade, angústia, foram sentimentos relados pela ex-detenta, que hoje vive uma nova vida, fora da prisão.

Marta e seu filho de 31 anos foram detidos pela Polícia Civil em Guarapari, após suspeita de estarem extorquindo materiais e ameaçando uma senhora. Na delegacia, policiais encontraram algumas provas que podiam indiciar os suspeitos. A família, quando soube da notícia, entrou em desespero e não souberam como agir, pois nunca tiveram conhecimento da área criminal. Os indivíduos foram detidos e encaminhados para presídios da Grande Vitória.

A jovem mulher encontrava na bíblia as mensagens de fé e passava para outras pessoas ao seu redor
A jovem mulher encontrava na bíblia as mensagens de fé e passava para outras pessoas ao seu redor

Passaram-se meses, quando aconteceu a primeira audiência. Já esclarecido o fato para a família. Marta alegou diante do juiz, que seu filho realizava trabalhos espirituais, e foi procurado pela “senhora”, que se sentia oprimida e ameaçada pelo companheiro de relacionamento.

A cada trabalho feito, o rapaz era recompensado pela “senhora”.  Com o tempo, ela acabou se apaixonando pelo jovem, que não quis nenhum envolvimento. Carros, perfumes de luxo, eletrônicos, tudo foi dado como forma de retribuição, a ajuda em que ela estava recebendo.

Dias se passaram e ela sumiu. Depois de uma semana o rapaz é detido enquanto almoçava em um restaurante. A senhora havia voltado para o seu companheiro, e juntos fizeram uma denúncia, dizendo que estavam sendo reféns do rapaz e de Marta,  que lhe roubaram todo o dinheiro e que segundo ela,  queriam matá-la.

O juiz ouviu todos os depoimentos de defesa, que foram muito evidentes e fortes. Os advogados já tinham feito pedidos de liberdade provisória, mas o juiz recusou.  Eles pegaram 3 anos e 6 meses de prisão  na condição de regime semi-aberto, trabalhando de dia e voltando para dormir na prisão a noite. Começava ali, uma experiência marcada em muita transformação de vida.

A única forma de Marta conseguir forças para sobreviver dentro de um presídio, foi buscando a Deus todos os dias.
A única forma de Marta conseguir forças para sobreviver dentro de um presídio, foi buscando a Deus todos os dias.

Marta buscou fé e sabedoria dentro do Centro de Detenção Provisória de Viana, para onde foi levada. Ali, se tornou mais temente a Deus, realiza cultos, pregava para as outras detentas em várias galerias, se mostrou mais forte, acreditava na bíblia e nas promessas feita pelo Jesus que ela acreditava.

Ela queria transmitir isso para suas colegas de cela. Quando anoitecia, eram os momentos mais fortes para ela. “De noite, quando a gente deitava no chão, as vezes molhado, era quando eu lembrava do meu filho mais novo, lembrava da minha mãe, dos meus irmãos, das minhas sobrinhas e chorava muito. Era difícil as vezes acreditar que aquilo tudo tinha acontecido, mas eu penso que foi bom, porque Deus mostrou o que ele é pra mim e o que eu devo ser para ele. Choro só de lembrar, queria estar em casa, dormindo na minha cama, rindo com meus pequenos. Jesus me libertou e o que eu passei lá dentro, eu nunca vou esquecer”. Desabafa.

Depois de meses sem ver o seu filho menor, ela foi chamada na sala de visitas achando que  era a sua sobrinha, que sempre a visitava. Mas, no momento em que seus olhos se cruzaram com os olhos do seu filho, o choro falou mais forte, os dois se abraçaram, choraram e disseram um para o outro, qual era o tamanho da saudade, do amor e do carinho que tinham. Era apenas uma hora para poder repor, o que meses não conseguiram destruir.

A hora da despedida era a mais dolorosa. Todas as outras famílias choravam pela situação dos seus entes queridos, queriam ver a liberdade, mas também a restauração de vidas. Foram inúmeras as visitas, onde eram relatadas as mudanças em nome da fé naquele lugar. “Nós realizávamos todos os dias cultos nas galerias e nas celas de frente, eu e outras irmãs de Cristo, éramos usadas por Deus naquele lugar, profetizávamos milagres e juntos cantamos as boas novas do Senhor. A cada dia eu era mais usada, Jesus falava comigo que tal irmã iria sair naquela semana, que o alvará da irmã Judite iria cantar (ser anunciado) na semana que vem, que Maria sairia em breve, que Joana estaria livre na segunda-feira. Foram várias bênçãos que realmente aconteciam naquele presídio. Aquilo virou uma loucura, todas as presas queriam que eu orasse por elas, eram as agentes que pediam oração, Deus tocava humildemente nos corações daqueles aflitos. Pelos corredores me chamavam de Irmã do Alvará, por que foram muitos que cantaram”. Conta Marta.

A fé em Deus, motivava a mulher na sua caminhada diária em busca da liberdade
A fé em Deus, motivava a mulher na sua caminhada diária em busca da liberdade

Um episódio importante para a autônoma foi quando ela pediu permissão a diretora do CDP, para realizar um culto de madrugada. Ela acordou todas as celas e juntas começaram a proclamar a bíblia. Foi uma rebelião espiritual. Quando ela foi para o período semi-aberto, as provações continuaram, até que numa noite calma. A irmã do alvará foi chamada por uma agente penitenciária, para avisar que estava solta, que poderia voltar para casa. Horas depois, sua família a aguardava esperando para irem embora e ter uma nova vida. Seu filho maior, também ganhou a liberdade.

“Eu fui chamada pela agente, achei que era para me dar remédio, mas aí ela disse que era para eu pegar as minhas coisas e aguardar na triagem, eu não estava acreditando, eu perguntei se era o meu alvará, ela disse que sim e que a minha família estava vindo me buscar. Eu celebrei com as minhas amigas lá dentro, era uma alegria que não tem explicação, depois de várias pessoas que saíram pela minha boca, usada através de Deus, para mostrar o amor dele por elas, era chegada a minha vez, era EU que iria agora. Quando vi meus irmãos me esperando lá fora. Era só alegria. Cheguei em casa e estavam todos me esperando, de braços abertos, vi a minha mãezinha, linda e forte. Eu sabia que tinha ganhado uma nova vida. Hoje eu sou grata à Deus e a eles. Sou mais feliz”. Celebra a mulher, ao contar sua história ao repórter.

Uma nova felicidade, novos sabores, novos saberes, novos relacionamentos, cultura, um novo respirar. Mas a FÉ é a mesma para a guerreira.

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