O feminismo nunca matou ninguém, o machismo mata todos os dias. Mesmo que não mate a vida literalmente, mata a feminilidade, a autoestima, a vontade de viver. As variadas formas de violência contra a mulher vão além da impunidade, e os altos índices de crimes contra elas em todo país devem-se, antes de tudo, a questões estruturantes da sociedade e seus preconceitos.

É o que defende a Delegada Maria Aparecida Sfalsini da delegacia de defesa da mulher de Vila Velha. “A sociedade ainda vive em uma cultura patriarcal, ou seja, com o pensamento de antigamente, onde muitos homens ainda acham que são os donos das mulheres, e isso leva muito tempo para mudar e, enquanto a violência contra mulher não for vista como um crime que precisa de punição severa, este quadro continuará do mesmo jeito ou até crescendo ainda mais”.

violencia-contra-mulher-02 Estudos. Estudos feitos pelo Instituto Sangari revelam que o índice de mulheres assassinadas no Brasil entre 1980 a 2010, pode ser ainda mais impressionante do que parece. São muitos os motivos que levam a esses crimes bárbaros cometidos com tanta frequência, e os principais deles são o alcoolismo, as drogas e o ciúme dos agressores pelas vítimas.

A maioria dos casos ocorre dentro da própria residência, onde as mulheres sofrem agressões físicas e verbais pelos parceiros, que, de acordo com pesquisas, a maior parte deles diz não concordar com esse ato deplorável que é a violência contra mulher. No entanto, há uma contradição neste fato, pois, mais de 80% dos crimes são cometidos pelos maridos ou namorados das vítimas.

Lei Maria da Penha. Com o objetivo de diminuir a incidência desses crimes, foi criada, pela constituição federal, a lei nº11.340 conhecida como Lei Maria da Penha, para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher. Essa lei entrou em vigor em 2006, porém, mesmo com essa nova proteção, grande parte das mulheres agredidas receiam denunciar seus agressores, e o motivo é constantemente o mesmo: o medo. violencia-mulher-flashmob_3

“A maioria das vítimas chegam aqui para registrar o boletim de ocorrência dizendo que já sofrem agressões há algum tempo, algumas até há anos, mas não tinham coragem de denunciar por medo, pena, ou até mesmo por amor. Porém com a implantação dessa nova lei, elas estão se encorajando cada vez mais quando vêem que a justiça está cumprindo ainda mais o seu papel”, ressaltou a delegada.

Vítima. A violência contra a mulher não é um crime apenas da atualidade, está presente na sociedade há muito tempo. Muitos atos horríveis contra as mulheres já eram praticados há bastante tempo. Submissão total aos homens, cárcere privado, mutilações e castigos corporais em geral já são crimes que ocorrem no mundo inteiro.

Ângela Costa (28) é uma das tantas mulheres que ilustram esse cenário de tensão e sofrimento. Assim como Amélia, personagem da música de Ataufo Alves deixou sua vaidade de lado para ser vítima de seu marido usuário de drogas, ela conta que vive dia e noite com pusilanimidade das agressões que são constantes e que já chegou até a perder parte da orelha com uma facada que levou dentro de sua própria casa, porém, não consegue se desvincular do marido, apesar de já ter tentado várias vezes. “Ele me bate, eu vou à delegacia e denuncio, a polícia prende e eu fico com pena, pois gosto dele apesar de tudo, e retiro a queixa”.

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Não são poucas as mulheres que denunciam e retiram as queixas logo após a prisão do seu agressor, muitas alegam que dependem deles financeira ou amorosamente. Porém, em Janeiro deste ano, o Supremo Tribunal Federal decidiu que, os agressores não precisam mais ser denunciados apenas pelas vítimas, e agora sim parentes, vizinhos ou amigos poderão tomar a atitude e fazer a denuncia de agressão e maus tratos que se referem à lei Maria da Penha e a vítima não poderá retirar a queixa.

De acordo com a delegada Maria Aparecida Sfalsini, nestes casos de lesão corporal, é instaurado o inquérito incondicionalmente e, só depois na justiça eles terão a oportunidade de ser ouvidos e até chegar a uma conciliação, mas mesmo assim se o Ministério Público entender que a vítima sofreu uma lesão muito grande e que o fato foi grave, independente da conciliação ou não, o agressor pode ser condenado.

Sofrimento. Mas porque tanta violência com alguém que escolheu viver na mesma casa, dividir a mesma cama? O Homem não sabe por que bate, mas a mulher precisa saber por que apanha, pois, independente se ele venha, a saber, ou não, é o único jeito, ou pelo menos o começo, dela pôr fim ao processo de agressão que sofre.Imagen Violência contra as Mulheres

Jéssica Dias, de 43 anos é outra vítima de tantos maus tratos sofridos por seu marido alcoólatra e usuário de drogas. Ela conta que a partir do terceiro ano de casamento, passou a viver em constante conflito com seu companheiro. “Cheguei a apanhar mais de uma vez por dia! Ele chegava bêbado e drogado todos os dias e parecia que éramos dois estranhos dentro da nossa própria casa. Eu tinha medo de denunciá-lo por que ele me ameaçava e eu não pensava só em mim, mas também nas minhas duas filhas. Sei que só estou viva até hoje por um milagre de Deus”.

Assim como escreveu o filósofo britânico John Stuart Mill (1806-1873) em seu famoso ensaio “A Sujeição das Mulheres”, o recurso à força física por parte dos homens era, no fim do século XIX, uma marca que ainda notava-se do tempo das cavernas, como a palmatória, que ainda resistia ao avanço da civilização. É lamentável constatar que no começo do século XXI a brutalidade do forte contra o fraco continue a ser tão dominante na relação dos casais.

553_662 Mesmo com altos índices de violência contra mulher no mundo todo e novas leis e medidas de conscientização, a justiça ainda deixa a desejar em algumas ocasiões. A passionalidade dos crimes impressiona. Há muitos casos de vítimas que tiveram coragem de ir a uma delegacia e fazer a denúncia da agressão sofrida, mas não foram atendidas a tempo e acabaram sendo assassinadas. E também a falta de provas por escolha da vítima ou incapacidade do Estado, faz com que os agressores ainda saiam impunes.

Esta é a “Cara do Brasil Real”, é um país que cresce e leva junto sua luta pela justiça e cumprimento de direitos e deveres dos cidadãos. Não podia ser diferente com a luta contra a violência de gênero, afinal, quem ama, não espanca.

Beatriz Fontana
Por Beatriz Fontana – Jornalista

Grande parte dessas mulheres que sofrem com tanta violência deixam suas vidas de lado e acabam aceitando serem escravas da crueldade, perdendo qualquer vestígio de vaidade e autoestima que uma mulher precisa para ser feliz.

Por Beatriz Fontana