A lotação da emergência do Hospital Francisco de Assis (HFA), em Guarapari, tem gerado muitas reclamações por parte dos pais de crianças que procuram o local para atendimento médico. Há casos em que oito horas se passam até que a criança seja admitida para tratamento.

Diante destas questões, procuramos os responsáveis do hospital e da Secretaria Municipal de Saúde, para explicarem o que está se passando. Tanto o HFA quanto a secretária municipal de Saúde, Aurelice Vieira, que vai deixar a pasta nos próximos dias (confira aqui), concordam quanto ao fato de que muitos pais sequer procuram um posto de saúde antes de levar as crianças para o hospital, gerando assim a superlotação da recepção do HFA.

A recepção do HFA está lotada constantemente. Muitos casos não são prioridade.
A recepção do HFA está lotada constantemente. Explicações são que muitos casos não são prioridade.

Unidades da Saúde. A maioria dos casos atendidos pelo hospital, 90% de acordo com a secretária e o HFA, deveriam ser tratados nas unidades da Saúde da Família e nas unidades de saúde dos bairros. Nesta semana conversamos com a secretária de saúde sobre o problema.

Foto: Gessika Avila/Portal 27
“Hoje são 19 equipes de saúde da família atendendo na cidade”. Foto: Gessika Avila/Portal 27

“O HFA não atende casos de ambulatório. Ali na frente seria atendimento de urgência e emergência, até existe um quadro na recepção do hospital que explica que a classificação e as situações menos sérias devem ser levadas para as unidades básicas de saúde. Hoje são 19 equipes de saúde da família atendendo na cidade. Mesmo que não tenha pediatra, o médico desta equipe tem competência para atender todas as faixas etárias”, explicou Aurelice.

Ainda de acordo com a secretária, até o ano passado, dois pediatras estavam disponíveis para atender os pacientes que eventualmente fossem ao HFA, mas que deveriam ser tratados na rede municipal de saúde. Mesmo com a disponibilidade destes profissionais, a procura era pequena. “A ponto de termos que realocar um dos pediatras porque tinha dias que ele atendia apenas seis crianças”.

Ainda segundo a secretária, mesmo o HFA informando que há pediatras para atender casos menos urgentes, o pai ou a mãe prefere ficar esperando seis, sete, oito horas do que ir na unidade de saúde.

Aurelice e Alessandra: população não procura as unidades de saúde e vão direto para o hospital. Foto: João Thomazelli/Portal 27
Aurelice e Alessandra: população não procura as unidades de saúde e vão direto para o hospital. Foto: João Thomazelli/Portal 27

E a secretária continuou: “Hoje, além dos médicos das unidades de saúde, existem cinco pediatras para atendimento nas unidades de referência. É importante ressaltar que a maioria dos pais nunca levou o filho em uma unidade de saúde. Eles preferem ir direto no HFA. Este comportamento tem que mudar, a não ser que seja um caso de urgência ou emergência, a criança deve ser atendida nas unidades de saúde”, enfatizou a secretária.

“No bairro Jabaraí, por exemplo, de segunda a quinta-feira tem dois do Mais Médicos, e na folga deles, tem mais um, mas os pais insistem em levar a criança direto para o HFA”, diz Aurelice.

HFA-predio
“Os pais insistem em levar a criança direto para o HFA”, diz Aurelice.

Para Alessandra Albani, supervisora em saúde, o que falta é um pouco de informação ao cidadão. “O município está muito bem estruturado nesta questão. Alguns municípios nem pediatra tem, mas o que nós precisamos é de trabalhar isso com a população. Deles terem a consciência de saber quando procurar a emergência do hospital e quando levar nas unidades de saúde. O HFA está orientando, distribuindo panfletos, inclusive nos bairros”, explicou Alessandra.

Agora a Secretaria Municipal de Saúde pretende começar um trabalho de conscientização nas comunidades para explicar sobre como a população deve proceder em casos ambulatoriais e de urgência e emergência, mas como, segundo ela, é também uma questão cultural, as expectativas são de que só daqui há alguns meses os resultados comecem a aparecer.

Resposta do HFA

Nossa equipe entrou em contato com a assessoria do Hospital Francisco de Assis, que nos encaminhou uma nota, que pode ser conferida na íntegra abaixo.

O Hospital Francisco de Assis (HFA) tem registrado neste mês de março 160 atendimentos por dia enquanto que o previsto em convênio é de 100 atendimentos médicos por dia. Esse aumento significativo está comprometendo o atendimento principal do hospital que é o de urgência e emergência, sobrecarregando a unidade de pronto-atendimento do HFA.

Estatísticas de atendimento médico mostram que 90% do total de atendimentos diários são sensíveis à atenção básica de saúde, ou seja, mais de 140 pacientes por dia poderiam ser atendidos nas unidades de saúde da família dos bairros. São sintomas de baixa complexidade classificados como pouco urgente (verde) e não urgente (azul) de acordo com o risco apresentado, como casos típicos de lesões de pele, resfriados, dor leve e recente, episódio de vômito.  

Hospital Francisco de Assis. Foto: João Thomazelli/Portal 27
Hospital Francisco de Assis. Foto: João Thomazelli/Portal 27

Essa alta porcentagem dos sintomas de baixa complexidade aliado ao expressivo número de procura acima dos 140 usuários/dia sobrecarrega o serviço com uma demanda imprópria, prejudicando a qualidade assistencial do hospital e fazendo com que os usuários tenham que esperar mais horas para serem atendidos. Mas apesar de ficarem insatisfeitos pelo tempo de espera, saem satisfeitos com o atendimento, principalmente por ser feito por pediatra.

O HFA está trabalhando em parceria com a Secretaria Municipal de Saúde (Sema) para que os territórios sanitários sejam contemplados com unidades de saúde capazes de atender a demanda pediátrica da atenção básica, realizando assim o serviço de promoção e prevenção de saúde da população e evitando que haja encaminhamentos desnecessários aos serviços de urgência e emergência do HFA.

O gerente administrativo do HFA, Márcio Garcia, ainda ressalta que juntos, HFA e Sema, querem e precisam divulgar melhor a importância de se buscar atendimento nas unidades de saúde, pois através delas são possibilitadas consultas médicas com revisão, acesso aos serviços de inalação, injeções, vacinas, exames laboratoriais bem como encaminhamentos para diversas especialidades médicas quando necessários.

A coordenação médica pediátrica do HFA alerta que a população está na contramão ao buscar atendimento ambulatorial em unidade hospitalar. A Dr. Sandra Cotta, responsável pelo pronto-atendimento infantil, orienta às mães que apenas diante da falta de resolutividade e evolução do quadro do paciente que se procure o HFA, evitando exposição desnecessária da criança em um ambiente com risco de contaminação e de infecção.