O primeiro turno das Eleições 2026 expôs uma clara divisão do eleitorado brasileiro com base na renda média municipal, revelando ao mesmo tempo uma perda de espaço do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas regiões mais vulneráveis do país. Segundo levantamento exclusivo da BBC News Brasil, que cruzou dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com a renda domiciliar per capita do Censo 2022 do IBGE, Lula perdeu participação percentual nos votos válidos em 954 dos mil municípios de menor renda do Brasil em comparação ao pleito de 2022.
Embora continue à frente de Flávio Bolsonaro (PL) na expressiva maioria dessas cidades (971 dos 1.000 municípios mais pobres), a fatia média do petista nesse grupo encolheu de 73,76% em 2022 para 69,78% em 2026. Em contrapartida, a fatia do candidato do PL subiu de 21,29% (registrados por Jair Bolsonaro em 2022) para 26,26% no atual pleito.
O mapeamento da BBC News Brasil analisou os extremos de renda do país e apontou a consolidação de dois blocos eleitorais opostos:
1.000 Cidades Mais Ricas: Flávio Bolsonaro venceu em 967 delas.
1.000 Cidades Mais Pobres: Lula ficou à frente em 971 delas.
Os extremos do eleitorado: de Uiramutã a Nova Lima
No patamar mais baixo da pirâmide de rendimento do país está Uiramutã (RR), município com o menor rendimento mensal per capita do Brasil (R$ 288,65 no Censo 2022) e com a maior proporção de população declarada indígena (96,6%). Na cidade roraimense, Lula obteve 68,95% dos votos válidos, enquanto Flávio somou 29,85%.
Vitórias expressivas do atual presidente também ocorreram em municípios como Manari (PE) — renda média de R$ 359,10 —, onde Lula alcançou 85,04% contra 11,05% de Flávio, e em Bagre (PA) (R$ 358,65), com placar de 74,67% a 22,57% a favor do petista.
| Município | Perfil de Renda (Censo 2022) | Votação de Lula (%) | Votação de Flávio (%) |
| Manari (PE) | R$ 359,10 / pessoa (Muito baixa) | 85,04% | 11,05% |
| Bagre (PA) | R$ 358,65 / pessoa (Muito baixa) | 74,67% | 22,57% |
| Uiramutã (RR) | R$ 288,65 / pessoa (Menor do país) | 68,95% | 29,85% |
| Nova Lima (MG) | R$ 4.299,91 / pessoa (Maior do país) | 42,58% | 46,08% |
| São Caetano do Sul (SP) | R$ 3.884,58 / pessoa (Muito alta) | 33,57% | 53,96% |
| Florianópolis (SC) | R$ 3.636,13 / pessoa (Muito alta) | 40,83% | 48,63% |
No polo oposto, Nova Lima (MG) registra o maior rendimento médio mensal do país, atingindo R$ 4.299,91 por morador. Ali, Flávio Bolsonaro garantiu a vitória com 46,08% dos votos válidos, ante 42,58% dados a Lula. O senador do PL também liderou em capitais e polos de renda elevada, como São Caetano do Sul (SP) (53,96% a 33,57%) e Florianópolis (SC) (48,63% a 40,83%).
Exceções que desafiam a média socioeconômica
Apesar da forte correlação entre renda e orientação do voto, o levantamento aponta exceções marcantes em centros urbanos com alto rendimento.
Em Niterói (RJ), que figura entre os municípios mais abastados da amostra (renda média de R$ 3.577,32), Lula saiu vitorioso com 48,35% dos votos válidos, contra 43,71% atribuídos a Flávio Bolsonaro. Cenário semelhante foi registrado na capital gaúcha, Porto Alegre (RS) (renda de R$ 3.203,31), onde o presidente abriu vantagem com 48,57% frente a 41,86% do candidato oposicionista.
No sentido inverso, cidades de baixa renda na Região Norte deram margens amplas ao parlamentar do PL, como em Alto Alegre (RR) (renda de R$ 467,63), onde Flávio venceu por 71,59% a 23,92%, e em Normandia (RR) (R$ 486,61), com vitória oposicionista por 53,84% a 43,14%.
Metodologia do estudo
O estudo da BBC News Brasil ordenou mais de 5 mil municípios brasileiros de acordo com os dados mais recentes do IBGE para renda domiciliar per capita. A análise selecionou os 1.000 de maior renda e os 1.000 de menor renda, atribuindo peso idêntico a cada município na contagem de lideranças partidárias, independentemente do tamanho do eleitorado local. Os pesquisadores ressaltam que os dados indicam os padrões de votação territorial por município e não revelam a opção individual de eleitores específicos em cada faixa de renda.










