Que a economia brasileira está num processo de desaceleração desde meados de 2014 e que isso iria atingir o mercado de trabalho de cheio em determinado momento, não há dúvida. A expectativa estava centrada na magnitude desse ajuste. A cada mês a realidade que se mostra configura um cenário perturbador para a cidade de Guarapari.

Se você é concursado, se já está aposentado ou se é indicação de cargo político, sorte a sua! Com raríssimas exceções, poucos empresários e profissionais de Guarapari tem se dado bem nesse tempo. Guarapari não é uma cidade para se fazer a vida. Guarapari é uma cidade para quem já tem a vida ganha.

A cada mês a realidade que se mostra configura um cenário perturbador para a cidade de Guarapari. – Crédito:TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO CONTEÚDO/AE/Código imagem:150810

Não gostaríamos de admitir isso com todas as letras. Que se prove o contrário. Mas o que se tem visto num cenário cruelmente marcado pela crise sócio econômica em nossa cidade são muitas portas de lojas e estabelecimentos comerciais fechadas, inúmeros imóveis com a famosa placa de “aluga-se”, um altíssimo aumento do número de inadimplentes no solo da locação imobiliária e uma enorme quantidade de moradores locais mudando de cidade, estado e país na busca da tão sonhada estabilidade profissional. Os fatos nos servem como trunfos e álibis nessa seara.

Ninguém é cego. O desemprego em Guarapari é preocupante. Para piorar a situação ainda mais, a cidade não possui mais a agência do sine. Isso sinaliza que há centenas de pessoas procurando uma vaga de emprego na cidade saúde, mas que não encontra, num caminho oficial, o elo e a ponte que lhes reconduza ao mercado de trabalho.

A atual e omérica taxa de desemprego local não consegue captar o que está acontecendo exatamente por essas bandas, a não ser quando vista de forma macro, nacionalmente falando.

Como exemplo, vamos analisar, ainda que rapidamente nesse artigo, a indústria, um setor que empregava quase sete milhões de pessoas no Brasil, somente no segundo semestre de 2014. Sabe-se que as indústrias estão, em sua maioria, fora dos grandes centros urbanos, em muitas dessas cidades de porte médio e totalizando 6,5 milhões de empregos, ou seja, 73% do setor.

Como esse está em crise há vários anos, podemos deduzir que os empregos perdidos nessas regiões ainda não estão nas estatísticas e provavelmente não irão aparecer. Ou seja, a situação é ainda pior, indo além daquilo que os dados nacionais, estaduais e locais revelam.

“O desemprego em Guarapari é preocupante. “: . (Foto: MARCELO OLIVEIRA / Diario Gaucho)

Outro ponto importante que corrobora com a tese de que “estamos pior do que se imagina” é que uma parte significativa de trabalhadores ainda recebe o seguro-desemprego, e isso limita a busca por uma nova colocação. Lembre-se que o indicador de desemprego reflete a sequência de eventos: “procurou emprego e não achou. Se achar, não é desempregado. Se não procurou, também não é desempregado”.

Além disso, o contingente de trabalhadores que ficam em “disponibilidade” em casa, esperando a empresa melhorar para voltarem a atividade, não são contabilizados como desempregados. O que isso significa para a economia local? A situação está ruim e pode ficar pior? É possível determinar um prazo final para esse cenário de desemprego local? Em primeiro lugar o impacto imediato de uma perda ou queda da renda é sobre o consumo, atingindo o comércio diametralmente.

Os números só não são piores por dois motivos. Primeiro que a pesquisa do setor não capta o comportamento dos micro e pequenos negócios, também concentrados nas regiões menores (como em nossa cidade). Em segundo, devido o amortecedor de renda que é o seguro-desemprego. Mas, esse benefício tem prazo, portanto, espere por vendas em queda, em especial para produtos supérfluos.

Sim, com a queda da renda podemos ter um aumento da inadimplência e mais restrições de crédito a frente, realimentando o ciclo restritivo. Qual seria o prazo final para esse cenário, como já questionamos? Como essa parcela da população que solicitou o seguro desemprego recentemente deve ter o benefício por um determinado período, é natural imaginar que, em meados do ano, provavelmente entre julho e agosto, os números do mercado de trabalho mostrem uma piora na situação.

Portanto, é possível sim que a situação fique pior quando se trata de dados do mercado de trabalho até agosto ou setembro de 2017. E quando é que termina essa crise? A notícia boa é que não há mal que perdure. Um dia realmente ela irá passar.

A chance da economia brasileira começar a apresentar sinais de que está saindo dessa crise no segundo semestre de 2017, aumenta. Isso se dá porque poucas foram as situações na qual o Brasil atravessou um ciclo tão extenso de crise como o que estamos vivendo.

O que pode fazer com que essa previsão não se concretize é a piora na situação política ou um novo choque negativo de preços e que pode realimentar um novo ciclo de queda na confiança, vendas, produção e com novos e maiores impactos ainda mais sem precedentes sobre o mercado de trabalho local.

A questão é que tal como colocado o plano macroeconômico de enfrentamento da atual situação, a economia ficará moribunda por vários meses. É um pacote a conta gotas. Não há robustez no controle de gastos e o Banco Central faz mudanças pontuais nos juros, sem penalizar os bancos públicos, que continuam a expandir moeda.

E mais problemas podem aparecer. Com menor número de pessoas com carteira assinada, o INSS arrecada menos, o Governo recolhe menos impostos e gasta mais com benefício social etc.

Está faltando, sim, mais energia, por parte do governo municipal no enfrentamento dessa crise. Por exemplo: “Onde está o pólo que reuniria dezenas de empresas, numa ação coordenada que visava gerar uma grande fonte de renda local? Onde estão as parcerias que seriam firmadas com a classe empresarial e que atrairia grandes investimentos para Guarapari?

Enquanto não se enxerga nenhuma articulação e nem se vê nenhuma ação política conjunta apontando nessa direção, a cidade segue sendo penalizada com o fantasma do desemprego assombrando nossas casas e famílias de maneira assustadora, onde a pergunta: “Onde estão os empregos de Guarapari?” segue sem nenhuma resposta. Infelizmente!

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